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quinta-feira, 9 de julho de 2015

JACK, O ESTRIPADOR


Primeiro serial killer pop da história, Jack, o Estripador, é contemporâneo da pulp fiction (Sherlock Holmes, Jekyll e Hyde, A Guerra dos Mundos) e da imprensa sensacionalista, que cobriu minuciosamente seus crimes. Cinco prostitutas de Whitechapel, bairro miserável de Londres, foram selvagemente estripadas por Jack entre agosto e novembro de 1888. O assassino nunca foi capturado, o que inspirou teorias conspiratórias completamente malucas. A mais popular, defendida pelo escritor Stephen Knight em Jack the Ripper: The Final Solution (Grafton Books, 1977), serviu de base para a ambiciosa graphic novel Do Inferno (Via lettera, 2002), de AIan Moore e Eddie Campbell, e para o filme de mesmo nome.
A tese é a seguinte; Jack, o Estripador, era Sir William Gull, médico da família real inglesa, que teria cometido os crimes a pedido da própria rainha Vitória. A confusão teria começado com o príncipe AIbert Victor, duque de Clarence, neto da rainha e segundo na linha sucessória. O príncipe supostamente se casara secretamente com uma certa Annie Crook, balconista de confeitaria, com quem tivera uma filha. A mulher, além de plebéia e pobre, era católica. Cinco amigas de Annie, todas prostitutas, conheciam a história e resolveram chantagear a coroa. Para eliminar o problema, a rainha convocou Sir William Gull, homem de sua extrema confiança (ele havia cuidado com discrição da sífilis do príncipe). Gull era maçom e contou com o silêncio e a cumplicidade da ordem para encobrir seus atos. O médico, entretanto, traiu a irmandade ao realizar os assassinatos de forma ritualística que remetem aos mistérios maçônicos. Uma das vitimas teve a barriga aberta, os intestinos puxados para fora e jogados sobre o ombro direito. Outra teve o coração arrancado e queimado numa lareira. As mutilações seriam uma referência ao castigo imposto a Jubela, Jubelo e Jubelum, os três assassinos de Hiram Abiff, lendário arquiteto do templo de Salomão e fundador da MAÇONARIA. Gull, sugere Stephen Knight, acreditava que as amigas de Annie mereciam a mesma punição, pois eram traidoras da Coroa.
Essa tese é reforçada pela misteriosa inscrição encontrada numa parede da rua Goulston, também em Whitechapel, ao lado do pedaço ensangüentado do vestido de uma das vitimas de Jack: “Os juwes são os homens que não serão culpados de nada”. O grafite foi apagado rapidamente por ordem do comissário de polícia Sir Charles Warren, que era maçom. Warren argumentou que a frase associava os judeus (“jews", em inglês) aos crimes, e que isso poderia provocar tumulto no bairro, onde viviam muitos imigrantes. Stephen Knight afirma que a expressão "juwes" é usada em textos maçônicos para se referir coletivamente aos irmãos da ordem. William Gull teria feito a inscrição para reafirmar sua missão e inocentar os companheiros. Warren a teria apagado para encobrir a ligação entre o assassino e a ordem.
Mas a tese de Stephen Knight não é levada muito a sério fora dos círculos conspirólogos. Os maçons dizem que a expressão "juwes" não existe e é pura invenção do escritor. Além disso, juram que William Gull jamais pertenceu à ordem. A idéia do assassinato ritualístico também despenca fácil: um dos castigos impostos aos traidores de Hiram Abiff foi a amputação da língua, mutilação que não aconteceu em nenhuma das vítimas do estripador.
John Douglas e Mark Olshaker, autores de Mentes Criminosas e Crimes Assustadores (Ediouro, 2002), concluem que o serial killer não era um criminoso meticuloso, mas desorganizado e apressado. Eles ridicularizam as especula­ções de Knight e atribuem os crimes a um imigrante polonês pobre e louco que vivia em Whitechapel na mesma época. Segundo eles, a inscrição que fala dos "juwes" não tem nada a ver com o caso e provavelmente é apenas um grafite racista e iletrado que se refere aos “judeus/jews" que vi­viam na região.
A hipótese mais recente sobre a identidade de Jack foi formulada pela escritora americana Patrícia Cornwell no livro Portroit of a Killer: Jack the Ripper - Case Closed (Putnan Pub Group, 2002). Ela afirma que o assassino era o pintor Walter Sickert, famoso por suas telas góticas.
Ah, sem conspiração não tem graça.