Atualmente exilado na Rússia, o ex-funcionário da CIA (Agência Central de Inteligência) e ex-analista da NSA (Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos) Edward Snowden acaba de criar uma conta no Twitter.
Os primeiros tweets de Snowden foram publicados no início da tarde de hoje (29) e mais da metade deles foram só de interação com o astrofísico Neil deGrasse Tyson. Brincadeiras como "Agora temos água em Marte! Será que eles conferem os passaportes na fronteira?" e "A segurança nunca dorme, mas eu ainda encontro tempo para fotos de gatinhos" foram feitas.
E o melhor de tudo é que, apesar de ter (até o momento da publicação dessa matéria) mais de 300 mil seguidores, Snowden só segue uma outra conta: a da NSA. Para quem não se lembra, o americano ficou conhecido em 2013, quando divulgou milhares de documentos secretos da Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos para os jornalistas Glenn Greenwald, Laura Poitras e Ewen MacAskill.
A NASA divulgou nessa segunda-feira, dia 28 de setembro, a descoberta de evidências contundentes sobre a existência de água líquida na superfície de Marte. Esse é o tipo de anúncio que mexe com nosso inconsciente coletivo, desperta a curiosidade das pessoas e faz com que nossa imaginação voe longe... Afinal, o que essa descoberta significa de verdade?
Para responder essa e muitas outras perguntas, dois cientistas da NASA especialistas em Marte foram escalados para entrar em um fórum no reddit e responder em tempo real perguntas dos internautas sobre o tema.
1- Por que o cidadão comum deveria se importar com isso? O que isso significa para a ciência e a exploração espacial? (postado por Sir_Azrael)
Mesmo salgada, a água líquida é um bom lugar para procurar formas de vida. Nós não sabemos quão robusta a vida em Marte (se é que ela existe) poderia ser. A água em qualquer estado também é um recurso que missões futuras podem explorar.
2- Qual a quantidade de água que estamos falando aqui? Qual o volume? (postado por prugavelak)
A gente acha que é uma quantidade bem pequena de água – talvez apenas o suficiente para molhar a camada de cima da superfície de Marte. As faixas de água possuem de 4 a 5 metros de largura e entre 200 e 300 metros de extensão.
3- Se as sondas não tivessem sido esterilizadas, isso colocaria em cheque uma possível descoberta de micróbios marcianos vivendo perto da água? Detratores não poderiam alegar que esses micróbios vieram da Terra? (postado por FormulaicResponse)
As sondas foram esterilizadas para os lugares específicos em que elas pousariam – nesses lugares não havia a evidência de água líquida. Para se aproximar dos chamados RSL (“recorring slope lineae” ou linhas recorrentes de encosta), as sondas deveriam ser esterilizadas em um nível mais avançado. Nós também recolhemos amostras de micróbios que poderiam estar na espaçonave antes do lançamento, assim podemos comparar com descobertas futuras.
4- Em 2011 foi divulgado que fluxos de água salgada podem ser um acontecimento sazonal. Qual foi a prova final de que isso estava acontecendo e qual foi a sua primeira reação com a descoberta? (postado por fisheez)
Com o MRO (Mars Reconnaissance Orbiter, ou orbitador de reconhecimento de Marte, em tradução livre), nós podemos observar alguns desses lugares ao longo do ano em Marte e depois observar o mesmo local no ano seguinte. Com o tempo, vimos que algumas dessas faixas d´água escureceram e continuaram existindo durante a temporada quente e desapareceram na temporada fria. O bom de ter a MRO por tanto tempo é que podemos checar as mudanças e padrões com o passar do tempo. Minha reação? Isso é tudo muito empolgante! Quanto mais perto chegamos de Marte, mais interessante ele fica.
5- Existem evidências de evaporação acontecendo em Marte? Como vocês sabem de onde essa água veio? Obrigado pela atenção! (postado por shutuptoby)
Às vezes, crateras causadas por impacto em Marte expõem gelo brilhante no fundo da cratera. Isso vai embora em poucos meses. O gelo, quando exposto, vai do sólido ao vapor. A evaporação de fluxos salgados também vai acontecer, então a água precisa ser reabastecida. Nós não sabemos como.
6- Esse sal encontrado na água de Marte é como nosso sal aqui na Terra ou é outro tipo de sal? (postado por logik9000)
O sal detectado em Marte é magnésio e perclorato de sódio. Eles não são sais típicos da Terra, mas têm uma característica que é a de manter a água líquida mesmo nas temperaturas de Marte, bem mais frias que as da Terra.
7- Qual o próximo passo? (postado por yeagerbomb16)
O próximo passo é procurar por mais locações em que fluxos de água salgada possam ocorrer. Nós cobrimos 3% de Marte em imagens com uma resolução alta o suficiente para enxergar esse tipo de coisa.
PLUS Alguns dos cientistas da NASA escrevem poesia ou fazem outro tipo de arte? Se a arte deles for inspirada pelo trabalho científico, vocês poderiam compartilhar com a gente?(postado por slumdogbillionaire)
Absolutamente. É preciso todos os tipos de mentes criativas para fazer ciência e engenharia que ninguém fez antes. Entre nossas equipes você encontrará atores, músicos, escultores, pintores – a lista é enorme. Para artistas visuais, dois artistas que me vêm à mente são Bill Hartmann e Dan Goods.
>> Os dois cientistas que participaram dessa espécie de entrevista coletiva informal e digital foram Rich Zurek, do NASA Mars Program e Leslie K. Tamppar, do Mars Reconnaissance Orbiter.
Alguns fragmentos de uma ossada do século 16 foram encontrados em um convento em Florença, na Itália e, segundo pesquisadores, eles podem pertencer ao corpo da verdadeira Mona Lisa.
Para Silvano Vinceti, acadêmico cuja pesquisa há anos é focada na pintura de Leonardo da Vinci, os ossos encontrados eram de Lisa Gherardini, a mulher do sorriso enigmático que inspirou a obra do artista.
Acredita-se que Lisa tenha sido a esposa do comerciante Francesco del Giocondo e que tenha passado os dias que antecederam sua morte no convento de Sant’Orsola, onde os fragmentos foram encontrados. Para provar essa teoria, os pesquisadores utilizaram datação por radiocarbono para determinar a idade dos ossos, e testes de DNA para estabelecer uma ligação entre os primeiros e os restantes dos corpos das crianças da família Gherardini, encontrados na cripta da família.
“Nosso maior problema até agora foi realizar os testes com os restantes das crianças, que estão muito fragmentados e deteriorados”, afirmou Giorgio Gruppioni, da perícia do laboratório da Universidade de Bolonha, na Itália. “Há vários elementos convergentes. Não podemos dar resultados absolutos de que os restos são de Lisa, mas a probabilidade é muito alta”, disse Vinceti.
Outra desvantagem encontrada pelos cientistas é o fato de não terem encontrado o crânio de Lisa. Mesmo sem os testes de DNA, com o crânio teria sido possível realizar a reconstrução facial, de forma a mostrar a semelhança com a musa inspiradora de da Vinci. Vinceti também acredita que a descoberta ajudaria a confirmar a identidade de Mona Lisa de uma vez por todas.
Genes, assim como pessoas, têm famílias — linhagens que se estendem através do tempo desde um dos membros fundadores. Esse ancestral se multiplicou e propagou, passando por transformações a cada nova reprodução.
Durante a maior parte dos últimos 40 anos, cientistas acreditaram que essa era a principal maneira como novos genes nasciam: eles simplesmente se originavam de cópias de genes já existentes. A versão antiga continuava desempenhando seu trabalho e a nova cópia ficava livre para evoluir funções inéditas.
Certos genes, no entanto, parecem desafiar essa história de gênese. Eles não têm parentes conhecidos, e não se parecem com qualquer outro gene. Eles são o equivalente molecular de uma misteriosa e assustadora criatura descoberta nas entranhas de uma remota floresta tropical; um enigma biológico aparentemente não relacionado com qualquer outra coisa na Terra.
O mistério sobre a origem desses genes órfãos intrigou cientistas durante décadas. Nos últimos anos, porém, uma explicação antes considerada herética vem ganhando impulso rapidamente: que muitos desses órfãos surgiram do chamado DNA “lixo”, ou DNA não codificante; os misteriosos filamentos de DNA entre genes. “A função gênica de alguma forma passa a existir”, resumiu David Begun, biólogo da Universidade da Califórnia em Davis.
No passado, essa metamorfose era considerada impossível, mas um crescente número de exemplos em organismos que vão de leveduras a moscas, camundongos e humanos convenceu a maior parte dos cientistas desse campo de que existem esses genes, os quais passaram a ser identificados com a expressão latina “de novo”.
Alguns pesquisadores acham que genes de novo até podem ser comuns. No mês passado, uma pesquisa apresentada na Sociedade de Biologia Molecular e Evolução, em Viena, na Áustria, identificou 600 genes humanos potencialmente com essa característica. “Supostamente, a existência de genes de novo era uma coisa rara”, observou Mar Albà, bióloga evolutiva no Instituto de Pesquisa do Hospital del Mar, em Barcelona, na Espanha, que apresentou o estudo. “Mas as pessoas começaram a vê-la mais e mais”.
Pesquisadores estão começando a entender que esses genes parecem compor uma parte significativa do genoma, mas até agora cientistas têm apenas uma vaga noção de quantos existem ou do que eles fazem. Além disso, mutações nesses genes podem ser gatilhos de falhas catastróficas. “Parece que esses novos genes muitas vezes são os mais importantes”, argumentou Erich Bornberg-Bauer, pesquisador em bioinformática da Universidade de Münster, na Alemanha.
Caçada aos órfãos
O modelo padrão de duplicação gênica explica muitas das milhares de famílias conhecidas de genes, mas ele tem limitações, pois implica que a maior parte da inovação teria ocorrido nos primórdios da história da vida. De acordo com esse modelo, há 3,5 bilhões de anos as moléculas biológicas mais primitivas teriam criado um conjunto de blocos de construção genética. Depois disso, cada nova repetição da vida ficaria limitada a ajustar esses blocos.
Mas, se o conjunto de ferramentas da vida é tão limitado, como a evolução pôde gerar a vasta coleção de animais que vemos hoje na Terra? “Se [componentes] novos só [derivam] de ‘peças’ velhas, não seríamos capazes de explicar mudanças fundamentais no desenvolvimento”, salientou Bornberg-Bauer.
A primeira evidência de que um rigoroso modelo de duplicação talvez não seja suficiente surgiu na década de 90, quando as tecnologias de sequenciamento de DNA se estabeleceram. Pesquisadores que analisavam o genoma da levedura constataram que um terço dos genes do organismo não tinha semelhança alguma com genes conhecidos em outros organismos. Na época, muitos cientistas presumiram que esses órfãos pertenciam a famílias que simplesmente ainda não tinham sido descobertas. Mas essa suposição não provou ser verdadeira. Ao longo da última década, cientistas sequenciaram o DNA de milhares de organismos distintos; no entanto, muitos genes órfãos continuam desafiando uma classificação. Suas origens permanecem um mistério.
Em 2006, Begun encontrou algumas das primeiras evidências de que genes de fato poderiam nascer de DNA não codificante. Ele comparou sequências gênicas da mosca-das-frutas padrão de laboratório, Drosophila melanogaster, com outras espécies congêneres estreitamente aparentadas. As diferentes moscas compartilham a vasta maioria de seus genomas. Mas Begun e seus colaboradores encontraram vários genes que só estavam presentes em uma ou duas espécies e não nas outras, o que sugeriu que esses genes não descendiam de ancestrais existentes. Em vez disso, Begun propôs que sequências randômicas de DNA “lixo” (não codificante) no genoma da mosca-das-frutas poderiam se transmutar em genes funcionais.
No entanto, criar um gene a partir de uma sequência randômica de DNA parece tão improvável quanto despejar no chão um frasco cheio de pedrinhas do jogoScrabble e esperar que as letras formem uma frase coerente. O DNA “lixo” precisa acumular mutações que lhe permitam ser lidas pela célula ou convertido em ácido ribonucleico (RNA, na sigla em inglês), assim como componentes regulatórios que determinam quando e onde o gene deve ser ativo. E, assim como uma frase, esse gene tem de ter um começo e um fim; ou seja, códigos curtos que sinalizam seu início e fim.
Além disso, o RNA ou a proteína produzida pelo gene precisam ser úteis. Genes recém-nascidos poderiam revelar-se tóxicos, produzindo proteínas nocivas, como aquelas que se aglutinam nos cérebros de pacientes com Alzheimer. “Proteínas têm uma forte tendência para se desenrolarem e gerarem desnaturação”, explicou Joanna Masel, bióloga da Universidade do Arizona, em Tucson. “É difícil ver como obter uma nova proteína de sequências randômicas quando se espera que elas causem tantos problemas”. Masel está estudando meios com que a evolução poderia contornar esse problema.
Outro desafio para a hipótese de Begun foi que a dificuldade para distinguir um gene de novo verdadeiro de outro que mudou drasticamente em relação ao original de seus ancestrais. (A dificuldade de identificar os verdadeiros genes de novo continua sendo uma fonte de discórdia no campo.)
Há 10 anos, Diethard Tautz, biólogo do Instituto Max Planck para Biologia Evolutiva, na Alemanha, foi um de muitos pesquisadores céticos em relação à ideia de Begun. Tautz havia encontrado explicações alternativas para genes órfãos. Alguns genes misteriosos haviam evoluído muito rapidamente, deixando sua ancestralidade irreconhecível. Outros foram criados através da recombinação de fragmentos de genes.
Então sua equipe se deparou com o gene Pldi, batizado em homenagem ao jogador de futebol alemão Lukas Podolski. A sequência está presente em camundongos, ratazanas e humanos. Nas duas últimas espécies, ele permanece em silêncio, o que significa que não é convertido em RNA ou proteína. O DNA só é ativo ou transcrito em RNA em camundongos, nos quais parece ser importante: animais desprovidos dele têm espermatozoides mais lentos e testículos menores.
Os pesquisadores conseguiram rastrear a série de mutações que converteram o pedaço silencioso de DNA não codificante em um gene ativo. Esse trabalho mostrou que o novo gene de fato é um de novo verdadeiro e descartou a alternativa de que ele pertenceria a uma família de genes que simplesmente evoluiu até um ponto além do reconhecimento. “Foi aí que pensei ‘ok’, isso tem de ser possível”, admitiu Tautz.
Uma onda de genes inéditos
Agora cientistas já catalogaram diversos exemplos claros de genes de novo: um na levedura que determina se ela se reproduzirá sexuada ou assexuadamente, outro que se tornou essencial para o voo em moscas e outros insetos de duas asas, e alguns que encontrados somente em humanos, mas cujas funções permanecem provocadoramente nebulosas.
Na conferência da Sociedade de Biologia Molecular e Evolução, em agosto, Albà e seus colaboradores identificaram centenas de supostos genes de novo em humanos e chimpanzés — dez vezes mais que estudos anteriores — por meio de poderosas novas técnicas para análise de RNA. Dos 600 genes específicos de humanos que a equipe de Albà encontrou, 80% são inteiramente novos; ou seja, nunca tinham sido identificados antes.
Infelizmente, decifrar a função de genes de novo é muito mais difícil do que identificá-los. Mas pelo menos alguns deles não estão inativos, fazendo o equivalente genético a “girar seus polegares”. Evidências sugerem que uma parcela desses genes torna-se rapidamente essencial. Cerca de 20% de genes novos em moscas-das-frutas parecem ser necessários para a sobrevivência. E muitos outros mostram sinais de seleção natural, indício de que estão fazendo algo útil pelo organismo.
Em humanos, pelo menos um gene de novo está ativo no cérebro, o que leva alguns cientistas a especular que genes desse tipo podem ter ajudado a impulsionar a evolução do órgão. Outros, quando mutados, são associados ao câncer, sugerindo que eles têm uma função importante na célula. “O fato de que ser desregulado pode ter consequências tão devastadoras implica que a função normal é importante ou poderosa”, concluiu Aoife McLysaght, geneticista da Trinity College, em Dublin, que identificou os primeiros genes de novo humanos.
Proteínas promíscuas
Genes de novo também são parte de uma mudança maior, que envolve nossa concepção do aspecto e funcionamento de proteínas. Esses genes muitas vezes são curtos e produzem proteínas pequenas. Em vez de se emaranharem em uma estrutura precisa – conforme a noção convencional de como uma proteína se comporta –, proteínas de novo têm uma arquitetura mais desordenada. Isso as torna um pouco “frouxas”, ou flexíveis, o que lhes permite se ligarem a uma gama mais ampla de moléculas. No jargão bioquímico, essas jovens proteínas são promíscuas.
Cientistas ainda não sabem muito sobre como essas proteínas mais curtas se comportam, em grande parte porque as tecnologias de triagem padrão tendem a ignorá-las. A maioria dos métodos para detecção de genes e suas proteínas correspondentes seleciona sequências longas que têm alguma similaridade com genes existentes. “É fácil não notá-las”, concordou Begun.
Mas isso está começando a mudar. À medida que cientistas reconhecem a importância de proteínas mais curtas, eles estão adotando novas tecnologias para descobrir genes. Como resultado, o número de genes de novo pode até “explodir”. “Não sabemos que coisas genes mais curtos fazem”, admitiu Masel. “Temos muito a aprender sobre o seu papel em biologia”.
Cientistas também querem entender como genes de novo são integrados na complexa rede de reações que impulsionam a célula, um problema particularmente intrigante. É como se uma bicicleta desenvolvesse espontaneamente uma peça nova e a incorporasse rapidamente em seu mecanismo, mesmo funcionando bem sem ela. “A questão é fascinante, mas completamente desconhecida”, resumiu Begun.
Um gene especificamente humano, chamado ESRG, ilustra esse mistério particularmente bem. Parte da sequência é encontrada em macacos e outros primatas. Mas ele só é ativo em humanos, onde é essencial para a manutenção das primeiras células-tronco embrionárias. E, no entanto, macacos e chimpanzés são perfeitamente aparelhados para produzir células-tronco embrionárias sem ele. “É um gene especificamente humano desempenhando uma função que tem de pré-datar o gene, pois outros organismos também têm essas células-tronco”, ponderou McLysaght.
“Como um gene novo, inédito, se torna funcional? Como ele é incorporado a processos celulares reais?”, questionou a geneticista. “Para mim, essa é a questão mais importante no momento”. Revista Quanta (leia a matéria original aqui, em inglês).
Os operadores do Espectrômetro Magnético Alfa (AMS, na sigla em inglês), a bordo da Estação Espacial Internacional, que sonda raios cósmicos em busca de sinais de que a chamada matéria escura estaria sendo aniquilada no espaço profundo, estão batalhando para descobrir como manter três cruciais bombas de arrefecimento funcionando após a falha de uma quarta no ano passado.
O problema técnico suscita as mais sérias preocupações até agora sobre a sobrevivência do equipamento, orçado em US$ 2 bilhões, até a planejada aposentadoria da estação espacial em 2024. Concebido originalmente para uma missão de três anos, o AMS já está em seu quarto ano de funcionamento, com outros nove pela frente.
“Estamos analisando diversas possibilidades” para determinar o que deu errado com a bomba de refrigeração para tentar consertá-la, informa Mark Sistilli, gerente do programa AMS, na sede da Nasa em Washington D.C. Testes já descartaram pelo menos uma possibilidade: a de que radiação teria “fritado” os componentes eletrônicos da bomba avariada.
O espectrômetro continua colhendo dados científicos com suas três bombas restantes. Elas são parte de um sistema de arrefecimento de dióxido de carbono líquido destinado a dissipar calor à medida que o AMS, instalado fora da estação espacial, é exposto ciclicamente à luz solar a cada órbita, de 90 minutos, em torno da Terra.
Somente uma bomba é necessária a qualquer dado momento. Uma delas parou de funcionar em fevereiro de 2014 e pelo menos mais uma das outras três está apresentando possíveis sinais de problemas.
Desde que começou a operar em 2011, o AMS, de 8,5 toneladas, já monitorou a passagem de mais de 69 bilhões de raios cósmicos por seus detectores. Seu objetivo é procurar por sinais de antimatéria e matéria escura. Em 2013, cientistas do projeto relataram ter medido números e energias de pósitrons que sugeriram, mas não confirmaram, a existência de matéria escura.
A robustez científica do experimento depende do número de partículas monitoradas; portanto, quanto mais tempo ele durar, mais sólidas serão as conclusões. “Obtivemos alguns resultados científicos formidáveis até agora”, comemora Sistilli. “Realmente queremos chegar a 2024 se pudermos”.
Funcionamento estendido
A princípio, o AMS só deveria operar durante três anos. Seu design original incluía um magneto supercondutor que realizaria a tarefa científica mais rapidamente, mas os engenheiros o trocaram por outro comum poucos meses antes do lançamento. Testes haviam mostrado que o modelo supercondutor aquecia mais que o esperado, e a equipe temeu que ele pudesse consumir todo o seu hélio [líquido] de arrefecimento antes do término de seus planejados três anos de funcionamento.
Agora, o sistema de refrigeração é novamente a causa do problema. As bombas, localizadas em uma parte do AMS conhecida como rastreador de silício, são as mesmas que foram projetadas originalmente para durar três anos com um magneto supercondutor.
O mecanismo foi construído por uma equipe internacional liderada pelo Laboratório Nacional Aeroespacial, da Holanda, em Amsterdã. Um representante dali encaminhou perguntas ao grupo científico do AMS no CERN, a Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear, perto de Genebra, na Suíça, dirigido pelo ganhador do Prêmio Nobel de Física de 1976, Samuel Ting, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, em Cambridge.
Ting, que norteou o projeto AMS através de anos de desenvolvimento e contratempos, mostrou pouca paciência para perguntas sobre as bombas de refrigeração. “Temos quatro bombas e só precisamos de uma”, diz ele sumariamente. “Esperamos operar durante todo o tempo de vida útil da estação espacial”.
A correção do problema depende do que será apontado como causa. Uma solução simples poderia ser fazer o upload de software que opere as bombas restantes de um jeito diferente para permitir que elas durem mais, sugere Sistilli. Outra possibilidade seria instalar uma manta térmica nelas, ou perto delas, para controlar as temperaturas e reduzir suas cargas. Outras partes do AMS já dispõem desses dispositivos isolantes. Um cenário mais pessimista envolveria uma caminhada espacial dos astronautas para substituir peças.
Pode levar de seis meses a um ano até que a equipe do AMS chegue a uma solução, avalia Sistilli.
Enquanto isso, um segundo instrumento, menor, para o experimento de detecção de matéria escura, chamado Calorimetric Electron Telescope (CALET, em inglês), chegou à ISS no mês passado. O dispositivo, controlado pela Agência Japonesa de Exploração Aeroespacial (JAXA), caçará raios cósmicos a energias mais elevadas que as medidas nos estudos do AMS. Scientific American
O ponto crítico militar mais volátil e preocupante do mundo não está, indiscutivelmente, no Estreito de Taiwan, na Península da Coreia, no Irã, em Israel, na Caxemira ou na Ucrânia.
De fato, ele não pode ser localizado em qualquer mapa da Terra, embora seja muito fácil de encontrar.
Para vê-lo, basta olhar para cima, para um céu claro, para a “terra de ninguém” que é a órbita terrestre, onde está se desenrolando um conflito que é uma corrida armamentista em tudo, menos no nome.
Talvez a vastidão do espaço exterior seja o último lugar em que se esperaria ver militares competindo por território disputado, exceto pelo fato de que o espaço exterior já não está mais tão vazio.
Cerca de 1.300 satélites ativos circundam o globo em um congestionado traçado de órbitas, fornecendo meios de comunicação, navegação por GPS, previsão meteorológica e vigilância planetária.
Para forças armadas que dependem de alguns desses satélites em guerras modernas, o espaço tornou-se a quintessência do “terreno elevado”, com os EUA como o rei indiscutível “no topo da colina”.
Agora, à medida que China e Rússia procuram agressivamente desafiar a superioridade americana no espaço com ambiciosos programas espaciais militares próprios, a luta pelo poder corre o risco de precipitar um conflito que poderia prejudicar seriamente, se não paralisar, toda a infraestrutura espacial do planeta.
E embora possa começar no espaço, uma confrontação desse tipo poderia deflagrar facilmente uma guerra total na Terra.
As tensões que vinham fervilhando há muito tempo agora estão se aproximando de um ponto de ebulição devido a vários acontecimentos, inclusive recentes e contínuos testes russos e chineses de possíveis armas antissatélites, assim como o fracasso, em julho, das conversações sob os auspícios das Nações Unidas para aliviar as tensões.
Em depoimento perante o Congresso no início do ano, James Clapper, diretor de Inteligência Nacional, ecoou as preocupações de muitas altas autoridades do governo sobre a crescente ameaça a satélites americanos, ao afirmar que tanto a China como a Rússia estão “desenvolvendo capacidades para negar acesso em um conflito”, como os que podem eclodir por causa das atividades militares de Pequim, no Mar da China meridional, ou de Moscou, na Ucrânia.
A China, em particular, ressaltou Clapper, demonstrou “a necessidade de interferir com, danificar e destruir” satélites americanos, referindo-se a uma série de testes de mísseis antissatélites, que começaram em 2007.
Há muitas maneiras de desativar ou destruir satélites além de explodi-los provocativamente com mísseis.
Uma nave espacial poderia simplesmente se aproximar de um satélite e lançar (borrifar) tinta em seus dispositivos ópticos, ou quebrar manualmente suas antenas de comunicação, ou ainda desestabilizar sua órbita.
Lasers podem ser usados para desativar temporariamente ou danificar de forma permanente os componentes de um satélite, particularmente seus delicados sensores, e ondas de rádio ou micro-ondas podem bloquear ou sequestrar transmissões para ou de controladores em terra.
Em resposta a essas possíveis ameaças, a administração Obama programou um orçamento de pelo menos US$ 5 bilhões a serem gastos nos próximos cinco anos para melhorar as capacidades defensivas e ofensivas do programa espacial militar do país.
Os EUA também estão tentando resolver o problema por meio da diplomacia, embora com sucesso irrisório; no final de julho, na ONU, discussões há muito esperadas sobre um código de conduta para nações que exploram o espaço, redigido tentativamente pela União Europeia, empacaram devido à oposição da Rússia, China e de vários outros países, inclusive Brasil, Índia, África do Sul e Irã.
O fracasso colocou soluções diplomáticas para a crescente ameaça em um limbo, conduzindo, provavelmente, a muitos anos mais de debates no âmbito da Assembleia Geral da ONU.
“O xis da questão é que os Estados Unidos não querem conflitos no espaço exterior”, resumiu Frank Rose, secretário-assistente de Estado para controle de armamentos, verificação e cumprimento das leis, que liderou os esforços diplomáticos americanos para impedir uma corrida armamentista espacial.
Os Estados Unidos, declarou Rose, estão dispostos a trabalhar com a Rússia e a China para manter o espaço seguro. “Mas quero deixar muito claro: nós defenderemos nossos bens espaciais se formos atacados”.
Teste
A perspectiva de guerra no espaço não é nova.
Temendo armas nucleares soviéticas lançadas da órbita terrestre, os EUA começaram a testar armamentos antissatélites no final da década de 50.
Os americanos chegaram até a testar bombas nucleares no espaço antes que armas orbitais de destruição em massa foram proibidas através do Tratado do Espaço Exterior da ONU, em 1967.
Após a proibição, a vigilância baseada no espaço tornou-se um componente crucial da Guerra Fria, com satélites servindo como uma parte importante de elaborados sistemas de alerta antecipado de prontidão para detectar o posicionamento ou lançamento de armas nucleares baseadas em terra.
Durante a maior parte da Guerra Fria, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) desenvolveu e testou “minas espaciais”, naves espaciais autodetonantes que podiam procurar e destruir satélites espiões dos EUA ao bombardeá-los com estilhaços.
Na década de 80, a militarização espacial culminou com a multibilionária Iniciativa de Defesa Estratégica do governo de Ronald Reagan, apelidada “Guerra nas Estrelas”, para desenvolver medidas retaliatórias orbitais contra mísseis balísticos intercontinentais soviéticos.
E, em 1985, a Força Aérea dos Estados Unidos fez uma clara demonstração de suas formidáveis capacidades, quando um caça F-15 lançou um míssil que destruiu um satélite falho americano na baixa órbita da Terra.
Durante tudo isso, não ocorreu uma corrida armamentista desenfreada e total, nem foram deflagrados conflitos diretos.
De acordo com Michael Krepon, perito em controle de armas e cofundador do think tank Centro Stimson, na capital Washington, isso se deveu ao fato de que tanto os EUA com a URSS perceberam o quanto seus satélites eram vulneráveis, especialmente os que encontravam em órbitas geossincrônicas (ou geoestacionárias), de aproximadamente 35 mil quilômetros ou mais.
Esses satélites efetivamente pairam acima de um ponto no planeta, tornando-os alvos muito fáceis.
Mas como qualquer ação hostil contra esses satélites poderia escalar facilmente para uma troca nuclear aberta na Terra, as duas superpotências recuaram.
“Nenhum de nós assinou um tratado sobre isso”, observa Krepon. “Simplesmente chegamos independentemente à conclusão de que nossa segurança estaria mais ameaçada se fossemos atrás desses satélites, porque se um de nós fizesse isso, então o outro também faria”.
Hoje, a situação é muito mais complicada.
Órbitas terrestres baixas e altas tornaram-se incubadoras de atividade científica e comercial, repletas de centenas e centenas de satélites de cerca de 60 nações diferentes.
Apesar de seus propósitos majoritariamente pacíficos, todos os satélites, sem exceção, estão em risco, em parte porque nem todos os membros do crescente clube de potências militares espaciais estão dispostos a agir de acordo com as mesmas regras, e nem precisam fazer isso, porque até agora elas ainda não foram escritas.
Lixo espacial
Satélites se deslocam pelo espaço a velocidades muito altas; portanto, o jeito mais rápido e sujo de “matar” um deles é simplesmente lançar alguma coisa ao espaço para obstruir seu caminho.
Até o impacto de um objeto tão pequeno e rudimentar quanto uma bolinha de gude pode desativar ou destruir inteiramente um satélite de um bilhão de dólares.
E se uma nação empregar um método “cinético” desses para destruir o satélite de um adversário, ela pode facilmente criar detritos ainda mais perigosos, potencialmente originando uma reação em cadeia que transformará a órbita terrestre em palco de uma absurda corrida de demolição.
Em 2007, os riscos de detritos aumentaram drasticamente quando a China lançou um míssil que destruiu um de seus próprios satélites meteorológicos na baixa órbita terrestre.
Aquele teste gerou um “enxame” de estilhaços de longa vida que constitui quase um sexto de todos os detritos rastreáveis por radar em órbita.
Os EUA responderam na mesma moeda em 2008, ao redirecionarem um míssil antibalístico lançado de um navio para abater um satélite militar avariado pouco antes de ele cair na atmosfera.
Essa medida também produziu lixo perigoso, embora em quantidades menores, e os detritos tiveram vida mais curta porque foram gerados a uma altitude muito mais baixa.
Mais recentemente, a China lançou o que muitos especialistas dizem ser testes adicionais de armas cinéticas antissatélites baseadas em terra.
Nenhum desses novos lançamentos destruiu satélites, mas Krepon e outros peritos afirmam que isso é porque os chineses agora só estão testando para errar o alvo, em vez de atingi-lo, com a mesma capacidade hostil como resultado final.
O último desses episódios aconteceu em 23 de julho do ano passado.
As autoridades chinesas insistem que a única finalidade dos ensaios é defesa antimíssil pacífica e experimentação científica.
Mas um teste, realizado em maio de 2013, lançou um projétil desses a uma altitude de 30 mil km acima da Terra, aproximando-se do “santuário” de satélites geossincrônicos estratégicos.
Aquilo foi um chamado de alerta, admite Brian Weeden, analista de segurança e ex-oficial da Força Aérea que estudou e ajudou a divulgar o teste chinês.
“Os Estados Unidos aceitaram há décadas o fato de que seus satélites de baixa órbita poderiam ser abatidos facilmente”, diz ele. “Mas quase atingir [a órbita geossincrôncica] fez as pessoas entenderem que, nossa!, alguém realmente poderia tentar ir atrás das coisas que temos lá em cima”.
Não foi coincidência que pouco depois de maio de 2013, os EUA liberaram a divulgação de detalhes de seu programa ultrassecreto Consciência Situacional do Espaço Geossincrônico (GSSAP), um planejado conjunto de quatro satélites capaz de monitorar as altas órbitas da Terra e até se encontrar com outros satélites para inspecioná-los de perto.
Os dois primeiros GSSAPs foram lançados à órbita em julho de 2014.
“Este costumava ser um [chamado] ‘programa preto’, algo que oficialmente nem existia”, explica Weeden. “Ele basicamente foi oficializado (liberado para divulgação) para enviar uma mensagem dizendo: ‘Ei, se você estiver fazendo algo suspeito dentro e ao redor do cinturão geossincrônico, nós veremos’”.
Um intruso na órbita geossincrônica não precisa ser um míssil com uma ogiva (ponta) cheia de explosivos para ser um risco de segurança, mesmo aproximar-se ou se encostar em satélites estratégicos de um adversário é considerado uma ameaça.
Esta é uma das razões por que potenciais adversários dos Estados Unidos podem estar alarmados com as capacidades de rendezvous (encontros) dos satélites GSSAP e dos aviões espaciais robóticos altamente manobráveis X-37B da Força Aérea americana.
A Rússia também está desenvolvendo sua própria capacidade de abordar, inspecionar e potencialmente sabotar ou destruir satélites em órbita.
Nos últimos dois anos, o país incluiu três misteriosas cargas em lançamentos de outra forma rotineiros de satélites comerciais, sendo que o último ocorreu em março deste ano.
Observações de radar feitas pela Força Aérea americana e por entusiastas amadores revelaram que depois que cada um desses satélites foi posicionado, um pequeno objeto adicional voava para bem longe do foguete arremessado, só para depois dar meia volta e voltar.
Os objetos, apelidados Kosmos-2491, K-2499 e K-2504, podem ser apenas parte de um programa inofensivo para o desenvolvimento de técnicas para fazer a manutenção e reabastecer satélites velhos, argumenta Weeden, embora também possam ser destinados a propósitos mais sinistros.
Tratados oferecem poucas garantias
Autoridades chinesas sustentam que suas atividades militares no espaço são simplesmente experimentos científicos pacíficos, enquanto as autoridades russas em geral têm se mantido em silêncio na maior parte do tempo.
As duas nações poderiam ser vistas como simplesmente respondendo ao que elas entendem como o desenvolvimento clandestino, pelos EUA, de potenciais armas espaciais.
De fato, os sistemas americanos de defesa de mísseis balísticos, seus aviões espaciais X-37B e até suas naves espaciais GSSAP, embora todos ostensivamente destinados a manter a paz, poderiam ser facilmente convertidos em armas de guerra espacial.
Durante anos, a Rússia e a China vêm pressionando para a ratificação de um tratado legalmente vinculativo das Nações Unidas para banir armas espaciais; um tratado que autoridades americanas e especialistas externos têm rejeitado repetidamente como uma inviabilidade cínica.
“O esboço do tratado sino-russo visa proibir justamente as coisas que eles mesmos estão procurando desenvolver tão ativamente”, reclama Krepon. “Ele serve perfeitamente aos seus interesses. Eles querem liberdade de ação, e estão encobrindo isso com essa proposta para proibir armas espaciais”.
Mesmo se o tratado estivesse sendo proposto de boa fé “ele estaria morto ao chegar” ao Congresso e não teria a menor chance de ser ratificado, salienta Krepon.
Afinal, os EUA também querem liberdade de ação no espaço, e no espaço nenhum outro país tem mais capacidade e, portanto, mais a perder.
De acordo com Rose, existem três problemas fundamentais com o tratado.
“Um, ele não é efetivamente verificável, o que os russos e chineses admitem”, argumenta. “Você não consegue detectar trapaça. Dois, ele é totalmente silencioso (omisso) sobre a questão das armas terrestres antissatélites, como as que a China testou em 2007 e novamente em julho de 2014. E, terceiro, ele não define o que é uma arma no espaço exterior”.
Como alternativa, os EUA apoiam uma iniciativa liderada pela Europa para estabelecer “normas” para uma conduta adequada através da criação de um Código Internacional de Conduta para o Espaço Exterior, voluntário.
Este seria um primeiro passo, a ser seguido por um acordo vinculativo.
Um esboço dessa proposta, que Rússia e China impediram de ser adotada nas discussões de julho na ONU, exige maior transparência e “construção de confiança” entre nações com capacidade espacial como um meio de promover a “exploração e o uso pacífico do espaço exterior”.
Espera-se que isso possa impedir a geração de mais detritos e o contínuo desenvolvimento de armas espaciais.
No entanto, como o tratado russo-chinês, esse código também não define exatamente o que constitui uma “arma espacial”.
Essa imprecisão representa problemas para altas autoridades da defesa, como o general John Hyten, chefe do Comando Espacial da Força Aérea dos EUA.
“Nosso sistema de vigilância baseado no espaço, que olha para os céus e monitora tudo na órbita geossincrônica, é um sistema de armas?”, pergunta ele. “Creio que todos no mundo olhariam para isso e diriam não. Mas ele é manobrável, viaja a mais de 27.350 km por hora, e tem um sensor a bordo. Não é uma arma, certo? Mas a linguagem [de um tratado] proibiria a nossa capacidade de realizar uma vigilância baseada no espaço? Eu espero que não!”
Guerra no espaço é inevitável?
Enquanto isso, mudanças na política dos EUA estão dando à China e à Rússia mais razões para novas suspeitas.
O Congresso tem pressionado a comunidade de segurança nacional dos EUA a voltar suas atenções para o papel das capacidades ofensivas, em vez das defensivas, chegando até a impor que a maior parte do financiamento do ano fiscal de 2015 para o Programa Segurança e Defesa Espacial, do Pentágono, seja destinada ao “desenvolvimento de estratégias e capacidades ofensivas de controle e defesa ativa do espaço”.
“Controle espacial ofensivo” é uma clara referência a armas.
“Defesa ativa” é uma expressão muito mais nebulosa e se refere a medidas indefinidas de retaliação ofensiva que poderiam ser tomadas contra um atacante, ampliando ainda mais os caminhos através dos quais o espaço pode se tornar um ambiente equipado com armas.
Se uma ameaça iminente for percebida, um satélite ou seus operadores poderiam desfechar um ataque por meios de lasers ofuscantes, micro-ondas de interferência, bombardeio cinético, ou diversos outros métodos possíveis.
“Espero nunca travar uma guerra no espaço”, diz Hyten. “Isso é ruim para o mundo. A cinética [armamentos antissatélites] é horrível para o mundo”, devido aos riscos existenciais que os detritos representam para todos os satélites.
“Mas se a guerra se estender ao espaço”, argumenta ele, “precisamos ter capacidades ofensivas e defensivas com que responder, e o Congresso nos pediu que explorássemos que capacidades seriam estas. E, para mim, o único fator limitante é ‘nada de detritos’. Não importa o que faça, não crie detritos”.
Uma tecnologia para bloquear ou interferir em transmissões, por exemplo, parece sustentar o Counter Communications System (CCS), o sistema de interferência ofensiva em comunicações da Força Aérea, a única capacidade ofensiva americana reconhecida contra satélites no espaço.
“Basicamente o CCS é uma grande antena sobre um trailer, e ninguém sabe como ele realmente funciona, o que de fato faz”, informa Weeden, salientando que, como a maior parte das atividades (trabalhos) espaciais, os detalhes do sistema são ultrassecretos.
“Tudo o que sabemos essencialmente é que eles poderiam usá-lo de para interferir ou bloquear de alguma forma satélites de um adversário ou talvez até enganar ou hackear os instrumentos”.
Para Krepon, os debates sobre as definições de armas espaciais e a agressiva exibição de poder militar entre Rússia China e Estados Unidos estão atrapalhando e eclipsando a questão mais premente dos detritos espaciais.
“Todo mundo está falando sobre objetos intencionais, feitos pelo homem, destinados a travar guerras no espaço, e é como se estivéssemos de volta na Guerra Fria”, compara.
“Enquanto isso, já há cerca de 20 mil armas lá em cima em forma de detritos. Eles não têm nenhum propósito, e não são guiados. Eles não estão procurando detectar satélites inimigos. Eles só estão zanzando por lá, fazendo o que fazem”.
O ambiente espacial, salienta, precisa ser protegido como um bem comum global, como os oceanos e a atmosfera da Terra.
Lixo espacial é muito fácil de ser produzido e muito difícil de ser eliminado; por essa razão, os esforços internacionais deveriam se concentrar na prevenção de sua criação.
Além da ameaça de destruição deliberada, o risco de colisões acidentais e impactos de detritos continuará aumentando à medida que mais nações lançam e operam mais satélites sem uma rigorosa responsabilização e supervisão internacional.
E, à medida que a chance de acidentes aumenta, o mesmo acontece com a possibilidade de eles serem mal interpretados como ações deliberadas e hostis na tensa intriga melodramática dessa intensa competição militar no espaço.
“Estamos no processo de sujar e estragar o espaço, e a maioria das pessoas não se dá conta disso porque não podemos vê-lo como vemos o abate de peixes marinhos, florações enormes de algas, ou os efeitos da chuva ácida”, adverte ele.
“Para evitar poluir e destruir a órbita terrestre, precisamos de um senso de urgência que atualmente ninguém tem. Talvez possamos senti-lo quando não conseguirmos usar nossa televisão por satélite ou nossas telecomunicações, ou acessar noticiários sobre o clima global e previsões de furacões. Quando formos catapultados de volta às condições da década de 50, talvez possamos adquiri-lo. Mas então será tarde demais”. Scientific American