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terça-feira, 29 de setembro de 2015

Detector de matéria escura da Estação Espacial Internacional falha novamente



Os operadores do Espectrômetro Magnético Alfa (AMS, na sigla em inglês), a bordo da Estação Espacial Internacional, que sonda raios cósmicos em busca de sinais de que a chamada matéria escura estaria sendo aniquilada no espaço profundo, estão batalhando para descobrir como manter três cruciais bombas de arrefecimento funcionando após a falha de uma quarta no ano passado.

O problema técnico suscita as mais sérias preocupações até agora sobre a sobrevivência do equipamento, orçado em US$ 2 bilhões, até a planejada aposentadoria da estação espacial em 2024. Concebido originalmente para uma missão de três anos, o AMS já está em seu quarto ano de funcionamento, com outros nove pela frente.

“Estamos analisando diversas possibilidades” para determinar o que deu errado com a bomba de refrigeração para tentar consertá-la, informa Mark Sistilli, gerente do programa AMS, na sede da Nasa em Washington D.C. Testes já descartaram pelo menos uma possibilidade: a de que radiação teria “fritado” os componentes eletrônicos da bomba avariada.

O espectrômetro continua colhendo dados científicos com suas três bombas restantes. Elas são parte de um sistema de arrefecimento de dióxido de carbono líquido destinado a dissipar calor à medida que o AMS, instalado fora da estação espacial, é exposto ciclicamente à luz solar a cada órbita, de 90 minutos, em torno da Terra.

Somente uma bomba é necessária a qualquer dado momento. Uma delas parou de funcionar em fevereiro de 2014 e pelo menos mais uma das outras três está apresentando possíveis sinais de problemas.

Desde que começou a operar em 2011, o AMS, de 8,5 toneladas, já monitorou a passagem de mais de 69 bilhões de raios cósmicos por seus detectores. Seu objetivo é procurar por sinais de antimatéria e matéria escura. Em 2013, cientistas do projeto relataram ter medido números e energias de pósitrons que sugeriram, mas não confirmaram, a existência de matéria escura.

A robustez científica do experimento depende do número de partículas monitoradas; portanto, quanto mais tempo ele durar, mais sólidas serão as conclusões. “Obtivemos alguns resultados científicos formidáveis até agora”, comemora Sistilli. “Realmente queremos chegar a 2024 se pudermos”.

 

Funcionamento estendido

A princípio, o AMS só deveria operar durante três anos. Seu design original incluía um magneto supercondutor que realizaria a tarefa científica mais rapidamente, mas os engenheiros o trocaram por outro comum poucos meses antes do lançamento. Testes haviam mostrado que o modelo supercondutor aquecia mais que o esperado, e a equipe temeu que ele pudesse consumir todo o seu hélio [líquido] de arrefecimento antes do término de seus planejados três anos de funcionamento.

Agora, o sistema de refrigeração é novamente a causa do problema. As bombas, localizadas em uma parte do AMS conhecida como rastreador de silício, são as mesmas que foram projetadas originalmente para durar três anos com um magneto supercondutor.

O mecanismo foi construído por uma equipe internacional liderada pelo Laboratório Nacional Aeroespacial, da Holanda, em Amsterdã. Um representante dali encaminhou perguntas ao grupo científico do AMS no CERN, a Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear, perto de Genebra, na Suíça, dirigido pelo ganhador do Prêmio Nobel de Física de 1976, Samuel Ting, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, em Cambridge.

Ting, que norteou o projeto AMS através de anos de desenvolvimento e contratempos, mostrou pouca paciência para perguntas sobre as bombas de refrigeração. “Temos quatro bombas e só precisamos de uma”, diz ele sumariamente. “Esperamos operar durante todo o tempo de vida útil da estação espacial”.

A correção do problema depende do que será apontado como causa. Uma solução simples poderia ser fazer o upload de software que opere as bombas restantes de um jeito diferente para permitir que elas durem mais, sugere Sistilli. Outra possibilidade seria instalar uma manta térmica nelas, ou perto delas, para controlar as temperaturas e reduzir suas cargas. Outras partes do AMS já dispõem desses dispositivos isolantes. Um cenário mais pessimista envolveria uma caminhada espacial dos astronautas para substituir peças.

Pode levar de seis meses a um ano até que a equipe do AMS chegue a uma solução, avalia Sistilli.

Enquanto isso, um segundo instrumento, menor, para o experimento de detecção de matéria escura, chamado Calorimetric Electron Telescope (CALET, em inglês), chegou à ISS no mês passado. O dispositivo, controlado pela Agência Japonesa de Exploração Aeroespacial (JAXA), caçará raios cósmicos a energias mais elevadas que as medidas nos estudos do AMS.
 Scientific American

Guerra no espaço pode estar mais perto que nunca



O ponto crítico militar mais volátil e preocupante do mundo não está, indiscutivelmente, no Estreito de Taiwan, na Península da Coreia, no Irã, em Israel, na Caxemira ou na Ucrânia.

De fato, ele não pode ser localizado em qualquer mapa da Terra, embora seja muito fácil de encontrar.

Para vê-lo, basta olhar para cima, para um céu claro, para a “terra de ninguém” que é a órbita terrestre, onde está se desenrolando um conflito que é uma corrida armamentista em tudo, menos no nome.

Talvez a vastidão do espaço exterior seja o último lugar em que se esperaria ver militares competindo por território disputado, exceto pelo fato de que o espaço exterior já não está mais tão vazio.

Cerca de 1.300 satélites ativos circundam o globo em um congestionado traçado de órbitas, fornecendo meios de comunicação, navegação por GPS, previsão meteorológica e vigilância planetária.

Para forças armadas que dependem de alguns desses satélites em guerras modernas, o espaço tornou-se a quintessência do “terreno elevado”, com os EUA como o rei indiscutível “no topo da colina”.

Agora, à medida que China e Rússia procuram agressivamente desafiar a superioridade americana no espaço com ambiciosos programas espaciais militares próprios, a luta pelo poder corre o risco de precipitar um conflito que poderia prejudicar seriamente, se não paralisar, toda a infraestrutura espacial do planeta.

E embora possa começar no espaço, uma confrontação desse tipo poderia deflagrar  facilmente uma guerra total na Terra.

As tensões que vinham fervilhando há muito tempo agora estão se aproximando de um ponto de ebulição devido a vários acontecimentos, inclusive recentes e contínuos testes russos e chineses de possíveis armas antissatélites, assim como o fracasso, em julho, das conversações sob os auspícios das Nações Unidas para aliviar as tensões.

Em depoimento perante o Congresso no início do ano, James Clapper, diretor de Inteligência Nacional, ecoou as preocupações de muitas altas autoridades do governo sobre a crescente ameaça a satélites americanos, ao afirmar que tanto a China como a Rússia estão “desenvolvendo capacidades para negar acesso em um conflito”, como os que podem eclodir por causa das atividades militares de Pequim, no Mar da China meridional, ou de Moscou, na Ucrânia.

A China, em particular, ressaltou Clapper, demonstrou “a necessidade de interferir com, danificar e destruir” satélites americanos, referindo-se a uma série de testes de mísseis antissatélites, que começaram em 2007.

Há muitas maneiras de desativar ou destruir satélites além de explodi-los provocativamente com mísseis.

Uma nave espacial poderia simplesmente se aproximar de um satélite e lançar (borrifar) tinta em seus dispositivos ópticos, ou quebrar manualmente suas antenas de comunicação, ou ainda desestabilizar sua órbita.

Lasers podem ser usados para desativar temporariamente ou danificar de forma permanente os componentes de um satélite, particularmente seus delicados sensores, e ondas de rádio ou micro-ondas podem bloquear ou sequestrar transmissões para ou de controladores em terra.

Em resposta a essas possíveis ameaças, a administração Obama programou um orçamento de pelo menos US$ 5 bilhões a serem gastos nos próximos cinco anos para melhorar as capacidades defensivas e ofensivas do programa espacial militar do país.

Os EUA também estão tentando resolver o problema por meio da diplomacia, embora com sucesso irrisório; no final de julho, na ONU, discussões há muito esperadas sobre um código de conduta para nações que exploram o espaço, redigido tentativamente pela União Europeia, empacaram devido à oposição da Rússia, China e de vários outros países, inclusive Brasil, Índia, África do Sul e Irã.

O fracasso colocou soluções diplomáticas para a crescente ameaça em um limbo, conduzindo, provavelmente, a muitos anos mais de debates no âmbito da Assembleia Geral da ONU.

“O xis da questão é que os Estados Unidos não querem conflitos no espaço exterior”, resumiu Frank Rose, secretário-assistente de Estado para controle de armamentos, verificação e cumprimento das leis, que liderou os esforços diplomáticos americanos para impedir uma corrida armamentista espacial.

Os Estados Unidos, declarou Rose, estão dispostos a trabalhar com a Rússia e a China para manter o espaço seguro. “Mas quero deixar muito claro: nós defenderemos nossos bens espaciais se formos atacados”.

 

Teste

A perspectiva de guerra no espaço não é nova.

Temendo armas nucleares soviéticas lançadas da órbita terrestre, os EUA começaram a testar armamentos antissatélites no final da década de 50.

Os americanos chegaram até a testar bombas nucleares no espaço antes que armas orbitais de destruição em massa foram proibidas através do Tratado do Espaço Exterior da ONU, em 1967.

Após a proibição, a vigilância baseada no espaço tornou-se um componente crucial da Guerra Fria, com satélites servindo como uma parte importante de elaborados sistemas de alerta antecipado de prontidão para detectar o posicionamento ou lançamento de armas nucleares baseadas em terra.

Durante a maior parte da Guerra Fria, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) desenvolveu e testou “minas espaciais”, naves espaciais autodetonantes que podiam procurar e destruir satélites espiões dos EUA ao bombardeá-los com estilhaços.

Na década de 80, a militarização espacial culminou com a multibilionária Iniciativa de Defesa Estratégica do governo de Ronald Reagan, apelidada “Guerra nas Estrelas”, para desenvolver medidas retaliatórias orbitais contra mísseis balísticos intercontinentais soviéticos.

E, em 1985, a Força Aérea dos Estados Unidos fez uma clara demonstração de suas formidáveis capacidades, quando um caça F-15 lançou um míssil que destruiu um satélite falho americano na baixa órbita da Terra.

Durante tudo isso, não ocorreu uma corrida armamentista desenfreada e total, nem foram deflagrados conflitos diretos.

De acordo com Michael Krepon, perito em controle de armas e cofundador do think tank Centro Stimson, na capital Washington, isso se deveu ao fato de que tanto os EUA com a URSS perceberam o quanto seus satélites eram vulneráveis, especialmente os que encontravam em órbitas geossincrônicas (ou geoestacionárias), de aproximadamente 35 mil quilômetros ou mais.

Esses satélites efetivamente pairam acima de um ponto no planeta, tornando-os alvos muito fáceis.

Mas como qualquer ação hostil contra esses satélites poderia escalar facilmente para uma troca nuclear aberta na Terra, as duas superpotências recuaram.

“Nenhum de nós assinou um tratado sobre isso”, observa Krepon. “Simplesmente chegamos independentemente à conclusão de que nossa segurança estaria mais ameaçada se fossemos atrás desses satélites, porque se um de nós fizesse isso, então o outro também faria”.

Hoje, a situação é muito mais complicada.

Órbitas terrestres baixas e altas tornaram-se incubadoras de atividade científica e comercial, repletas de centenas e centenas de satélites de cerca de 60 nações diferentes.

Apesar de seus propósitos majoritariamente pacíficos, todos os satélites, sem exceção, estão em risco, em parte porque nem todos os membros do crescente clube de potências militares espaciais estão dispostos a agir de acordo com as mesmas regras, e nem precisam fazer isso, porque até agora elas ainda não foram escritas.

 

Lixo espacial

Satélites se deslocam pelo espaço a velocidades muito altas; portanto, o jeito mais rápido e sujo de “matar” um deles é simplesmente lançar alguma coisa ao espaço para obstruir seu caminho.

Até o impacto de um objeto tão pequeno e rudimentar quanto uma bolinha de gude pode desativar ou destruir inteiramente um satélite de um bilhão de dólares.

E se uma nação empregar um método “cinético” desses para destruir o satélite de um adversário, ela pode facilmente criar detritos ainda mais perigosos, potencialmente originando uma reação em cadeia que transformará a órbita terrestre em palco de uma absurda corrida de demolição.

Em 2007, os riscos de detritos aumentaram drasticamente quando a China lançou um míssil que destruiu um de seus próprios satélites meteorológicos na baixa órbita terrestre.

Aquele teste gerou um “enxame” de estilhaços de longa vida que constitui quase um sexto de todos os detritos rastreáveis por radar em órbita.

Os EUA responderam na mesma moeda em 2008, ao redirecionarem um míssil antibalístico lançado de um navio para abater um satélite militar avariado pouco antes de ele cair na atmosfera.

Essa medida também produziu lixo perigoso, embora em quantidades menores, e os detritos tiveram vida mais curta porque foram gerados a uma altitude muito mais baixa.

Mais recentemente, a China lançou o que muitos especialistas dizem ser testes adicionais de armas cinéticas antissatélites baseadas em terra.

Nenhum desses novos lançamentos destruiu satélites, mas Krepon e outros peritos afirmam que isso é porque os chineses agora só estão testando para errar o alvo, em vez de atingi-lo, com a mesma capacidade hostil como resultado final.

O último desses episódios aconteceu em 23 de julho do ano passado.

As autoridades chinesas insistem que a única finalidade dos ensaios é defesa antimíssil pacífica e experimentação científica.

Mas um teste, realizado em maio de 2013, lançou um projétil desses a uma altitude de 30 mil km acima da Terra, aproximando-se do “santuário” de satélites geossincrônicos estratégicos.

Aquilo foi um chamado de alerta, admite Brian Weeden, analista de segurança e ex-oficial da Força Aérea que estudou e ajudou a divulgar o teste chinês.

“Os Estados Unidos aceitaram há décadas o fato de que seus satélites de baixa órbita poderiam ser abatidos facilmente”, diz ele. “Mas quase atingir [a órbita geossincrôncica] fez as pessoas entenderem que, nossa!, alguém realmente poderia tentar ir atrás das coisas que temos lá em cima”.

Não foi coincidência que pouco depois de maio de 2013, os EUA liberaram a divulgação de detalhes de seu programa ultrassecreto Consciência Situacional do Espaço Geossincrônico (GSSAP), um planejado conjunto de quatro satélites capaz de monitorar as altas órbitas da Terra e até se encontrar com outros satélites para inspecioná-los de perto.

Os dois primeiros GSSAPs foram lançados à órbita em julho de 2014.

“Este costumava ser um [chamado] ‘programa preto’, algo que oficialmente nem existia”, explica Weeden. “Ele basicamente foi oficializado (liberado para divulgação) para enviar uma mensagem dizendo: ‘Ei, se você estiver fazendo algo suspeito dentro e ao redor do cinturão geossincrônico, nós veremos’”.

Um intruso na órbita geossincrônica não precisa ser um míssil com uma ogiva (ponta) cheia de explosivos para ser um risco de segurança, mesmo aproximar-se ou se encostar em satélites estratégicos de um adversário é considerado uma ameaça.

Esta é uma das razões por que potenciais adversários dos Estados Unidos podem estar alarmados com as capacidades de rendezvous (encontros) dos satélites GSSAP e dos aviões espaciais robóticos altamente manobráveis X-37B da Força Aérea americana.

A Rússia também está desenvolvendo sua própria capacidade de abordar, inspecionar e potencialmente sabotar ou destruir satélites em órbita.

Nos últimos dois anos, o país incluiu três misteriosas cargas em lançamentos de outra forma rotineiros de satélites comerciais, sendo que o último ocorreu em março deste ano.

Observações de radar feitas pela Força Aérea americana e por entusiastas amadores revelaram que depois que cada um desses satélites foi posicionado, um pequeno objeto adicional voava para bem longe do foguete arremessado, só para depois dar meia volta e voltar.

Os objetos, apelidados Kosmos-2491, K-2499 e K-2504, podem ser apenas parte de um programa inofensivo para o desenvolvimento de técnicas para fazer a manutenção e reabastecer satélites velhos, argumenta Weeden, embora também possam ser destinados a propósitos mais sinistros.

 

Tratados oferecem poucas garantias

Autoridades chinesas sustentam que suas atividades militares no espaço são simplesmente experimentos científicos pacíficos, enquanto as autoridades russas em geral têm se mantido em silêncio na maior parte do tempo.

As duas nações poderiam ser vistas como simplesmente respondendo ao que elas entendem como o desenvolvimento clandestino, pelos EUA, de potenciais armas espaciais.

De fato, os sistemas americanos de defesa de mísseis balísticos, seus aviões espaciais X-37B e até suas naves espaciais GSSAP, embora todos ostensivamente destinados a manter a paz, poderiam ser facilmente convertidos em armas de guerra espacial.

Durante anos, a Rússia e a China vêm pressionando para a ratificação de um tratado legalmente vinculativo das Nações Unidas para banir armas espaciais; um tratado que autoridades americanas e especialistas externos têm rejeitado repetidamente como uma inviabilidade cínica.

“O esboço do tratado sino-russo visa proibir justamente as coisas que eles mesmos estão procurando desenvolver tão ativamente”, reclama Krepon. “Ele serve perfeitamente aos seus interesses. Eles querem liberdade de ação, e estão encobrindo isso com essa proposta para proibir armas espaciais”.

Mesmo se o tratado estivesse sendo proposto de boa fé “ele estaria morto ao chegar” ao Congresso e não teria a menor chance de ser ratificado, salienta Krepon.

Afinal, os EUA também querem liberdade de ação no espaço, e no espaço nenhum outro país tem mais capacidade e, portanto, mais a perder.

De acordo com Rose, existem três problemas fundamentais com o tratado.

“Um, ele não é efetivamente verificável, o que os russos e chineses admitem”, argumenta. “Você não consegue detectar trapaça. Dois, ele é totalmente silencioso (omisso) sobre a questão das armas terrestres antissatélites, como as que a China testou em 2007 e novamente em julho de 2014. E, terceiro, ele não define o que é uma arma no espaço exterior”.

Como alternativa, os EUA apoiam uma iniciativa liderada pela Europa para estabelecer “normas” para uma conduta adequada através da criação de um Código Internacional de Conduta para o Espaço Exterior, voluntário.

Este seria um primeiro passo, a ser seguido por um acordo vinculativo.

Um esboço dessa proposta, que Rússia e China impediram de ser adotada nas discussões de julho na ONU, exige maior transparência e “construção de confiança” entre nações com capacidade espacial como um meio de promover a “exploração e o uso pacífico do espaço exterior”.

Espera-se que isso possa impedir a geração de mais detritos e o contínuo desenvolvimento de armas espaciais.

No entanto, como o tratado russo-chinês, esse código também não define exatamente o que constitui uma “arma espacial”.

Essa imprecisão representa problemas para altas autoridades da defesa, como o general John Hyten, chefe do Comando Espacial da Força Aérea dos EUA.

“Nosso sistema de vigilância baseado no espaço, que olha para os céus e monitora tudo na órbita geossincrônica, é um sistema de armas?”, pergunta ele. “Creio que todos no mundo olhariam para isso e diriam não. Mas ele é manobrável, viaja a mais de 27.350 km por hora, e tem um sensor a bordo. Não é uma arma, certo? Mas a linguagem [de um tratado] proibiria a nossa capacidade de realizar uma vigilância baseada no espaço? Eu espero que não!”

 

Guerra no espaço é inevitável?

Enquanto isso, mudanças na política dos EUA estão dando à China e à Rússia mais razões para novas suspeitas.

O Congresso tem pressionado a comunidade de segurança nacional dos EUA a voltar suas atenções para o papel das capacidades ofensivas, em vez das defensivas, chegando até a impor que a maior parte do financiamento do ano fiscal de 2015 para o Programa Segurança e Defesa Espacial, do Pentágono, seja destinada ao “desenvolvimento de estratégias e capacidades ofensivas de controle e defesa ativa do espaço”.

“Controle espacial ofensivo” é uma clara referência a armas.

“Defesa ativa” é uma expressão muito mais nebulosa e se refere a medidas indefinidas de retaliação ofensiva que poderiam ser tomadas contra um atacante, ampliando ainda mais os caminhos através dos quais o espaço pode se tornar um ambiente equipado com armas.

Se uma ameaça iminente for percebida, um satélite ou seus operadores poderiam desfechar um ataque por meios de lasers ofuscantes, micro-ondas de interferência, bombardeio cinético, ou diversos outros métodos possíveis.

“Espero nunca travar uma guerra no espaço”, diz Hyten. “Isso é ruim para o mundo. A cinética [armamentos antissatélites] é horrível para o mundo”, devido aos riscos existenciais que os detritos representam para todos os satélites.

“Mas se a guerra se estender ao espaço”, argumenta ele, “precisamos ter capacidades ofensivas e defensivas com que responder, e o Congresso nos pediu que explorássemos que capacidades seriam estas. E, para mim, o único fator limitante é ‘nada de detritos’. Não importa o que faça, não crie detritos”.

Uma tecnologia para bloquear ou interferir em transmissões, por exemplo, parece sustentar o Counter Communications System (CCS), o sistema de interferência ofensiva em comunicações da Força Aérea, a única capacidade ofensiva americana reconhecida contra satélites no espaço.

“Basicamente o CCS é uma grande antena sobre um trailer, e ninguém sabe como ele realmente funciona, o que de fato faz”, informa Weeden, salientando que, como a maior parte das atividades (trabalhos) espaciais, os detalhes do sistema são ultrassecretos.

“Tudo o que sabemos essencialmente é que eles poderiam usá-lo de para interferir ou bloquear de alguma forma satélites de um adversário ou talvez até enganar ou hackear os instrumentos”.

Para Krepon, os debates sobre as definições de armas espaciais e a agressiva exibição de poder militar entre Rússia China e Estados Unidos estão atrapalhando e eclipsando a questão mais premente dos detritos espaciais.

“Todo mundo está falando sobre objetos intencionais, feitos pelo homem, destinados a travar guerras no espaço, e é como se estivéssemos de volta na Guerra Fria”, compara.

“Enquanto isso, já há cerca de 20 mil armas lá em cima em forma de detritos. Eles não têm nenhum propósito, e não são guiados. Eles não estão procurando detectar satélites inimigos. Eles só estão zanzando por lá, fazendo o que fazem”.

O ambiente espacial, salienta, precisa ser protegido como um bem comum global, como os oceanos e a atmosfera da Terra.

Lixo espacial é muito fácil de ser produzido e muito difícil de ser eliminado; por essa razão, os esforços internacionais deveriam se concentrar na prevenção de sua criação.

Além da ameaça de destruição deliberada, o risco de colisões acidentais e impactos de detritos continuará aumentando à medida que mais nações lançam e operam mais satélites sem uma rigorosa responsabilização e supervisão internacional.

E, à medida que a chance de acidentes aumenta, o mesmo acontece com a possibilidade de eles serem mal interpretados como ações deliberadas e hostis na tensa intriga melodramática dessa intensa competição militar no espaço.

“Estamos no processo de sujar e estragar o espaço, e a maioria das pessoas não se dá conta disso porque não podemos vê-lo como vemos o abate de peixes marinhos, florações enormes de algas, ou os efeitos da chuva ácida”, adverte ele.

“Para evitar poluir e destruir a órbita terrestre, precisamos de um senso de urgência que atualmente ninguém tem. Talvez possamos senti-lo quando não conseguirmos usar nossa televisão por satélite ou nossas telecomunicações, ou acessar noticiários sobre o clima global e previsões de furacões. Quando formos catapultados de volta às condições da década de 50, talvez possamos adquiri-lo. Mas então será tarde demais”.
Scientific American

Robôs assassinos são ameaça à segurança global


A seção Forum, da Scientific American, publica ensaios de especialistas convidados sobre temas atuais em ciência e tecnologia.

Em 28 de julho, o Instituto Future of Life (Futuro da Vida, FLI na sigla em inglês), com sede na área de Boston, divulgou uma carta aberta assinada por cerca de 1.500 pesquisadores de inteligência artificial (IA), robótica e tecnologia.

Entre os signatários, estão celebridades da ciência e tecnologia, como Stephen Hawking, Elon Musk e Steve Wozniak, além de intelectuais como Noam Chomsky e Daniel Dennett.

O documento pede a proibição internacional de dispositivos autônomos ofensivos, capazes de visar alvos e disparar armas sem controle humano significativo.

Os dias 6 e 9 de agosto marcaram o 70º aniversário dos bombardeios atômicos das cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, que juntos mataram mais de 200 mil pessoas, a maioria civis.

Dez 10 anos após os infames ataques, o físico Albert Einstein e o filósofo Bertrand Russell, junto com outros nove cientistas e intelectuais de renome, divulgaram uma carta exigindo uma ação global para lidar com a ameaça que as armas nucleares representavam para a humanidade.

Eles foram motivados pela devastação atômica no Japão, mas também pela escalada da corrida armamentista da Guerra Fria, que aumentava rapidamente e em larga escala o número, a capacidade destrutiva, e o lançamento eficiente de artefatos atômicos, drenando enormes recursos e colocando a humanidade em risco de total aniquilação.

Em sua mensagem, os autores também salientavam que os que mais sabiam sobre os efeitos dessas armas eram os mais preocupados e pessimistas quanto ao seu contínuo desenvolvimento e uso.

A carta do FLI é significativa pelas mesmas razões.

Subscrita por um grande grupo de especialistas que mais conhecimentos têm sobre robótica e IA, em uma semana o documento saltou de suas aproximadamente 1.500 assinaturas originais para 17 mil.

Os signatários incluem muitos atuais e ex-presidentes, fellows e membros da Associação Americana de Inteligência Artificial, da Associação de Máquinas para Computação (ACM), e da Sociedade de Robótica e Automação, do Instituto de Engenheiros Elétricos e Eletrônicos (IEEE); editores de grandes publicações científicas sobre IA e robótica; e integrantes-chave de empresas líderes em inteligência artificial, como as equipes do Google DeepMind, Facebook, e Watson da IBM.

Como Max Tegmark, professor de física do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e um dos fundadores do Instituto Futuro da Vida, declarou à revista digital Motherboard, “esses são os especialistas em IA, que estão construindo a tecnologia, que estão se pronunciando e dizendo que não querem ter nada a ver com isso”.

Armas robóticas representam sérias ameaças que, em conjunto, tornam uma proibição necessária.

Existem, por exemplo, preocupações se algoritmos de inteligência artificial seriam efetivamente capazes de distinguir civis de combatentes, especialmente em ambientes complexos de conflito.

 

Mesmo algoritmos avançados de IA não teriam a compreensão situacional ou a capacidade de determinar se o uso de força violenta foi apropriado, ou proporcional, em determinada circunstância.

Discriminação e proporcionalidade são exigências de leis internacionais para humanos que visam alvos e disparam armas de fogo, mas armas autônomas abririam uma lacuna de responsabilidade nessas determinações.

Como humanos não saberiam mais que alvos uma arma autônoma poderia selecionar, e como seus efeitos podem ser imprevisíveis, não haveria ninguém para ser responsabilizado pela morte e destruição que resultaria da ativação de um dispositivo desses.

Depois, como salienta a carta do FLI, há ameaças à estabilidade regional e global, além de sérios riscos para a humanidade.

O desenvolvimento de armas autônomas poderia levar muito rápida e facilmente a corridas armamentistas entre rivais.

Elas reduziriam os riscos para combatentes e assim poderiam diminuir os riscos políticos de se ir à guerra, o que resultaria em mais conflitos armados.

No entanto, elas poderiam ser destruídas (picadas), imitadas ou sequestradas; e dirigidas contra seus proprietários, civis ou terceiras partes.

Esses armamentos também poderiam iniciar ou escalar conflitos armados automaticamente, sem nenhuma tomada de decisão humana.

Em um futuro em que armas robóticas lutam contra outras armas independentes os resultados seriam intrinsecamente imprevisíveis, e muito mais propensos a levar à destruição em massa de civis e do meio ambiente que as guerras sem derramamento de sangue vislumbradas por alguns.

Criar uma violência automatizada, altamente eficiente, provavelmente levará a mais, e não a menos, violência.

Além disso, há também uma profunda questão moral em jogo.

Qual é o valor da vida humana se delegamos a responsabilidade de decidir quem vive e quem morre a máquinas? Em que tipo de mundo queremos viver para depois repassá-lo aos nossos filhos?

Um em que programas de IA e robôs têm os meios e a autoridade para usar força violenta e matar pessoas?

Se temos a oportunidade de criar um mundo em que armas autônomas são proibidas, e onde aqueles que talvez as usem são estigmatizados e responsabilizados por seus atos, não temos uma obrigação moral de trabalhar rumo a um mundo assim?

Podemos evitar o desenvolvimento de armas autônomas antes que elas precipitem corridas armamentistas e ameacem a segurança global, e antes que elas se tornem armas de destruição em massa.

Mas nossa janela de oportunidade para fazer isso está se fechando rapidamente.

Durante os últimos dois anos, a Campanha para Parar Robôs Assassinos tem instado as Nações Unidas a proibir armas autônomas.

A Convenção da ONU sobre Certas Armas Convencionais (CCW) já realizou dois encontros de especialistas no assunto, e nossa coalizão de 54 organizações não governamentais* de 25 países está encorajando a CCW a avançar essas discussões rumo à negociação de um tratado internacional.

Apreciamos muitíssimo o apoio conferido pela atual carta, mas precisamos continuar incentivando as nações representadas na CCW a seguir adiante nessa questão.

A natureza fundamental de uma corrida armamentista envolve a ação de países para melhorar seus próprios interesses de curto prazo à custa não só de seus próprios benefícios em longo prazo, mas também os do mundo.

Como deixa bem claro a carta de Einstein e Russell, “temos de aprender a pensar de um jeito novo. Temos de aprender a não nos perguntar que medidas podem ser tomadas para dar uma vitória militar a qualquer que seja o grupo de nossa preferência, porque já não existem medidas desse tipo. A pergunta que temos de nos fazer é: Que medidas podem ser tomadas para evitar um confronto militar, cujo desenlace certamente será desastroso para todas as partes”?

Precisamos continuar exigindo que nossos líderes e formuladores de políticas trabalhem em conjunto com outras nações para eliminar antecipadamente as ameaças representadas por armas robóticas, ao proibirem seu desenvolvimento e utilização antes que testemunhemos a destruição em massa que elas ameaçam trazer.

*O comitê orientador da campanha inclui as Conferências Pugwash sobre Ciência e Assuntos Mundiais, uma organização criada em resposta direta à carta de Einstein, Russell et al., e a AAR, uma ONG japonesa que divulgou um comunicado por ocasião do aniversário dos bombardeios de Hiroshima e Nagasaki.  

Publicado em Scientific American