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quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Dois planetas pouco maiores que a Terra 

podem estar escondidos nos extremos do 

Sistema Solar


Desde a descoberta do hoje planeta-anão Plutão, em 1930, os astrônomos se perguntam se outros corpos celestes de grandes dimensões estão escondidos para além da órbita de Netuno, atualmente considerado o último planeta do Sistema Solar. De lá para cá, eles encontraram diversos pequenos mundos nesta região do espaço, conhecida como Cinturão de Kuiper, mas nenhum deles, chamados coletivamente de “objetos transnetunianos”, era grande suficiente para se encaixar na posição do apelidado “Planeta X”. O maior deles, Sedna, descoberto em 2003, tem um diâmetro estimado em apenas mil quilômetros, ou menos de um terço do tamanho da nossa Lua.

Mas apesar de o suposto “Planeta X” ainda escapar de qualquer tentativa de detecção — levantamento feito pelo observatório espacial infravermelho Wise, da Nasa, já descartou a possibilidade de que algum gigante gasoso maior que Saturno esteja escondido na região —, as órbitas excêntricas do Sedna e alguns de seus irmãos transnetunianos mantêm acesa a suspeita sobre sua existência, pois a ação de sua gravidade é uma possível explicação para os estranhos caminhos que eles descrevem em torno do Sol.

Assim, cientistas da Universidade Complutense de Madri, na Espanha, e da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, apresentaram na semana passada cálculos que sugerem a possível presença de não só um, mas pelo menos dois planetas pouco maiores que a Terra, conhecidos como “super-Terras”, no Cinturão de Kuiper, respectivamente a distâncias de 30 bilhões e 37,5 bilhões de quilômetros do Sol. A título de comparação, a distância média de Netuno de nossa estrela é de cerca de 4,5 bilhões de quilômetros.

Para isso, os cientistas liderados por Carlos de la Fuente Marcos, da universidade espanhola, fizeram simulações levando em conta as órbitas do Sedna e de 12 outros objetos trasnetunianos com estranhos padrões de revolução em torno do Sol, aos quais nomearam coletivamente “objetos transnetunianos extremos” (Etnos, na sigla em inglês).

— Este excesso de objetos com parâmetros orbitais inesperados nos faz acreditar que algumas forças invisíveis estão alterando as órbitas dos Etnos e consideramos que a explicação mais provável é de que outros planetas desconhecidos existem além de Netuno e Plutão — diz Marcos, um dos autores de artigo sobre o estudo, aceito para publicação pelo periódico científico “Monthly Notices of the Royal Astronomical Society Letters”. — O número exato deles é incerto, considerando que os dados que temos são limitados, mas nossos cálculos sugerem que são pelo menos mais dois planetas, e provavelmente mais, dentro dos limites do Sistema Solar.

Esta, no entanto, não é a primeira vez que análises do tipo levantam esta possibilidade. Em 2012, o astrônomo brasileiro Rodney Gomes, do Observatório Nacional, apresentou durante reunião da Sociedade Americana de Astronomia cálculos que indicavam a possível presença de um planeta com cerca de quatro vezes o tamanho da Terra a uma distância de 225 bilhões de quilômetros do Sol para explicar o comportamento das órbitas de um número bem maior de objetos transnetunianos, 92 no total.

Tanto o caso de Gomes quanto o da equipe de Marcos, no entanto, esbarram em alguns problemas. Com a falta de evidências observacionais diretas dos supostos novos planetas do Sistema Solar, suas sugestões são feitas com base nos indícios indiretos da ação de sua força gravitacional, mas outros fenômenos também poderiam explicar as estranhas órbitas de alguns dos objetos transnetunianos. Além disso, principalmente no caso do estudo liderado pelo espanhol, a amostragem usada de Etnos é muito pequena, o que abre a possibilidade da excentricidade de suas órbitas ser uma simples coincidência.

Por fim, os atuais modelos de formação do Sistema Solar indicam não existirem outros planetas se movendo em órbitas estáveis quase circulares além de Netuno. Neste ponto, porém, observações recentes feitas pelo observatório Alma, localizado no Deserto do Atacama, no Chile, mostraram um disco de formação planetária em torno da estrela HL Tauri, mais jovem e mais maciça que o Sol, a mais de 15 bilhões de quilômetros dela, o que sugere que planetas podem mesmo se formar a grandes distâncias do centro de seus sistemas.

Segundo Marcos, nos próximos meses ele e sua equipe pretendem fazer mais simulações incluindo um número maior de objetos transnetunianos e caso seus cálculos continuem a implicar na presença de planetas maciços no Cinturão de Kuiper “isto pode revolucionar a astronomia”.