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terça-feira, 16 de junho de 2015

Se há vida inteligente fora da Terra, por que ainda não fomos contactados?

QUEM NÃO IA QUERER SER AMIGO DESSE CARA? (FOTO: JD HANCOCK, CC BY)
Fomos condicionados pela televisão e pelos filmes a aceitar a possibilidade de que há vida inteligente em outro lugar no universo. "Claro que existe vida inteligente por aí, eu vi na semana passada em Star Trek". Acompanhamos tudos, desde o fofo ET de Spielberg até a monstruosidade que é o Alien.
Já esse é menos fofinho (Foto: Artur, CC BY-SA)
Mas é provável que não estejamos sozinhos? E se há vida inteligente por aí, por que não fomos contatados ainda?
A primeira pessoa a analisar essa questão de forma sistemática foi Frank Drake, inventor da 'equação Drake', que tem como objetivo prever o número de civilizações extraterrestres na galáxia. A equação em si é complicada, mas há uma versão simples da argumentação por trás dela.
Primeiro, contamos quantas estrelas existem na galáxia. Para citar um dos meus predecessores, "Bilhões sobre bilhões!". E quantas dessas estrelas têm planetas? Até recentemente nós não sabíamos. Mas nos últimos 20 anos, atrônomos fizeram um grande progresso descobrindo planetas ao redor de outras estrelas. Então sabemos que muitas estrelas possuem planetas as orbitando
Mas alguma criatura poderia realmente viver nesses planetas? Muitos deles são só bolas gigantes de gás, ou muito quentes ou muito frios para ter água líquida, o que é a base de toda a vida na Terra. Alguns deles parecem ter uma temperatura adequada - e esses são nossos planetas 'cachinhos dourados': não tão quentes e nem tão frios para ter água líquida. (isso sem considerar a possibilidade de formas de vida exóticas que possam sobreviver sem água)
Agora entramos em um território mais sombrio. O quão provável é o desenvolvimento da vida em um planeta potencialmente habitável? Não sabemos a resposta, mas a vida na Terra começou pouco tempo depois da formação do Sistema Solar e se encaixou em todo nicho disponível, não importa quão hostil seria o ambiente.
Colônias de criaturas bizarras se multiplicaram na escuridão perpétua de fendas oceânicas profundas, onde a água cheia de enxofre e superaquecida sai do solo. Bactérias resistentes à radiação vivem contentes em níveis de radioatividade que matariam um humano instantaneamente. E aí temos o filo tardigrada, feito de 'ursinhos' microscópicos de oito patas, que podem viver em nitrogênio líquido ou álcool fervente.Então a probabilidade da vida se desenvolver em mundos habitáveis parece ser bem alta
tardigrada - fofinha e microscópica (Foto: wikimedia commons)
E quão provável seria que essa vida desenvolvesse inteligência? Essa continua sendo uma questão em aberto (que é a forma com que cientistas dizem que não fazem ideias). Mas muitos pesquisadores acreditam que a vida inteligente é praticamente inevitável, o que significa que a nossa galáxia está cheia de civilizações alienígenas. 
Ok, se a galáxia está cheia de ETs, onde eles estão? A viagem interestelar é limitada pelavelocidade da luz, então não deveria ser surpresa que ninguém tenha nos visitado. Masnós deveríamos, pelo menos, ser capazes de detectar sinais de rádio alienígenas, tanto de tentativas de nos contactar ou na forma de filmes sendo reprisados na "Sessão da Tarde" dos extraterrestres. Por que os aliens não nos contactaram? Essa pergunta foi feita pelo físico italiano Enrico Fermi, então é chamada de 'o paradoxo de Fermi': toda a nossa argumentação sugere que as civilizações aliens são comuns, mas ainda não vimos sinal delas.
Uma das possibilidades é que a vida inteligente é rara. Na minha opinião pessoal (e é só uma opinião), a vida é comum, mas a vida inteligente é bem rara (coisa que muitos de nós suspeitam baseados em nossa experiência pessoal). Quando a vida se desenvolveu em um piscar de olhos relativo depois do nascimento do Sistema Solar, demorou bilhões de anos até que nós, os espertões, surgíssemos. E lembre que a 'sobrevivência do mais forte' nem sempre significa a 'sobrevivência do mais inteligente'. Enquanto a inteligência, sem dúvida, interfere na sobrevivência, parece estar longe de ser inevitável. Afinal, se não fosse por um asteroide errante, o mundo ainda seria dominado por dinossauros.
Outra possibilidade é que a vida inteligente inevitavelmente se auto-destrói. Até recentemente, nossas opções de auto-destruição eram limitadas a armas nucleares. Mas agora estamos expandindo nossos armamentos para incluir vírus geneticamente modificados (pense na cruza do Ebola com a gripe comum!). 
Considere também os perigos das nanomáquinas, pequenos robôs que se replicam automaticamente, programados para converter matéria em mais robôs. Imagine um pequeno robô, não maior do que a largura de um fio de cabelo, programado para fazer cópias de si mesmo usando materiais disponíveis no ambiente. Logo você tem duas máquinas que podem criar duplicatas, resultando em quatro máquinas. Mas e se esse processo sai de nosso controle? As nanomáquinas poderiam rapidamente consumir a Terra inteira, convertendo-a, e todos no planeta, em uma gosma cinza. O astrônomo britânico Martin Rees discute essa e outras possibilidades catastróficas no seu livro Our Final Hour ('Nossa hora final', em tradução livre), ainda sem edição no Brasil. Será que todos os nossos visitantes aliens em potencial sucumbiram à auto-destruição?
amigos ou inimigos ? (Foto:   Interdimensional Guardians, CC BY)
Ou será possível que a galáxia realmente contenha outras formas de vida inteligente,mas que algo as impeça de entrar em contato conosco? Aqui entramos no reino das ideias mais especulativas. (Tradução: quando um cientista diz especulativa, ele quer dizer 'uma ideia bem interessante que está apenas a um passo de ser um absurdo completo')
Dentre essas possibilidades especulativas: talvez a galáxia seja um lugar perigoso, cheio de sondas robóticas enviadas por aliens hostis para eliminar qualquer competição - então todos os outros estão se escondendo. Talvez a gente realmente não devesse colocar uma descrição da localização do nosso planeta nas nossas próprias sondas. É uma ideia ruim tentar encontrar o ET quando nós podemos encontrar o Alien no lugar dele. 
Outra sugestão ainda mais bizarra é que civilizações superiores decidiram evitar contato com seres inferiores como nós humanos, então viveríamos em um tipo de zoológico cósmico, com um sinal de "Não fale com os animais" em nosso planeta. 
Alguns até sugeriram que vivemos em uma gigantesca simulação de computador, no melhor estilo "Matrix".
Uma lista ainda maior de possibilidades (com discussões céticas) foi compilada pelo astrônomo Milan Ćirković.
Mas sem mais dados, o paradoxo de Fermi vai permanecer, por enquanto, sem resposta. E muitas das possíveis soluções serão classificadas como especulativas. E agora você sabe exatamente o que 'especulativa' significa. 
*Robert Scherrer é professor e diretor de Física e Astronomia da Universidade Vanderbilt 
Este artigo foi originalmente publicado no The Conversation. Leia o texto original em inglês aqui.