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quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Como os hippies mudaram a física quântica


Nos próximos anos, a física quântica vai invadir nosso dia a dia — mesmo o daquelas pessoas que não gostam muito do assunto. Não acredita? Então basta olhar o noticiário. Nos últimos 12 meses, houve novidades em áreas como encriptação quântica (a Toshiba anunciou que seu sistema já está em fase de testes), computação quântica (engenheiros da IBM publicaram na revista científica Nature alguns de seus avanços mais recentes para a construção de um computador quântico) e até teletransporte quântico (pesquisadores suíços bateram o recorde de teletransporte usando duas partículas de luz distantes 25 quilômetros entre si). O que essas novidades não contam é que essa história não remete a grandes empresas de tecnologia nem a universidades renomadas. Na verdade, ela teve início 40 anos atrás e envolve um grupo de físicos jovens, ligados na cultura hippie da Califórnia e interessados em assuntos como filosofia, consciência, religiões orientais e até poderes paranormais.
Nos anos 1970, surgiu na Califórnia um novo tipo de físico. Eram jovens formados pelas melhores instituições de ensino dos Estados Unidos e que dominavam os aspectos mais complexos da disciplina. Com uma diferença: seus valores incluíam também a boemia e o psicodelismo que varreram o mundo alguns anos antes, durante a explosão da contracultura. O resultado era um estilo de vida que passava longe do estereótipo do geek inteligente.
O físico Sean Paul Sirag, por exemplo, abandonou as aulas na Universidade da Califórnia em Berkeley por anos. Tornou-se um dos seguidores da banda psicodélica Greatful Dead, ator (convidado a participar da primeira montagem de Hair) e ávido consumidor de LSD antes de voltar ao campus. O professor de física Jack Sarfatti, da San Diego State University, era muito amigo de boêmios lendários, como o poeta beat Greg Corso, frequentava as animadas festas do povo do cinema (indicou um colega para ser consultor de Spielberg em Contatos imediatos de terceiro grau) e foi reconhecido por um grande cabalista como “um herdeiro da tradição”. Colega de Sarfatti na mesma universidade, Fred Alan Wolf era um cético que começou a mudar de ideia depois de ter uma experiência transcendental meditando num templo budista no Nepal.
A mais certinha da turma era Elizabeth Rauscher, física nuclear que trabalhava no prestigiado Laboratório Lawrence Berkeley. Fora do expediente, ela lia sobre teosofia e praticava meditação, e foi demitida de um grupo de pesquisa porque militava em iniciativas de ações afirmativas. Além do interesse por temas como boemia, drogas ou misticismo, havia outro fator que unia o grupo. “Nós, jovens, acreditávamos que era preciso nos responsabilizarmos pelo que acontecia no mundo”, conta Elizabeth. “O fator principal era a Guerra do Vietnã. Isso incluía explorar as coisas por si mesmo, e não se limitar a acreditar no que as pessoas diziam.”
Em 1975, ela reuniu Sarfatti, Sirag e mais meia dúzia de colegas e deu início a um grupo de discussão conhecido como Fundamental Fysyks Group (FFG). O grupo funcionou durante quatro anos nas instalações do Lawrence Berkeley, na cidade de Berkeley, na Califórnia. A discussão girava em torno da mecânica quântica, a teoria da física que descreve o comportamento da natureza em escalas muito pequenas, menores que o átomo, e que foi objeto de grandes debates filosóficos até o início da Segunda Guerra Mundial. Em especial, a turma do FFG se interessava pelo fenômeno do entrelaçamento quântico, uma estranha propriedade que faz que partículas correlacionadas (ou, no termo técnico, entrelaçadas) exibam comportamentos associados sem que se saiba por que isso acontece.
A possibilidade do entrelaçamento quântico foi sugerida pela primeira vez em 1935, por Albert Einstein. Ao aventar a ideia, porém, o genial físico ale­mão pretendia mostrar que se tratava de algo absurdo, pois implicava uma espécie de ação fantasma a distância envolvendo as ­duas partículas. A única conclusão coerente, ele argumentava, era considerar que, se a mecânica quântica permitia o surgimento de uma hipótese tão esdrúxula, então só podia estar errada — e era urgente conceber outra teoria.
 (Foto: rafael quick)
CERTO (E ERRADO)
Durante décadas a previsão de Einstein pairou no meio acadêmico como um desafio à espera de algum valente. Este surgiu na figura de John Clauser, que em 1967 começou a se interessar pelo tema enquanto fazia doutorado. “Clauser dizia que trabalhar com assuntos ligados aos aspectos filosóficos da mecânica quântica implicava uma estigmatização intensa”, conta o físico e historiador da ciência David Kaiser, autor do livro How the Hippies Saved Physics (“Como os hippies salvaram a física”, em tradução livre), que relata minuciosamente a aventura do FFG. Clauser não estava exagerando. “Na época, a principal revista de física dos Estados Unidos se recusava a publicar qualquer artigo sobre esse tema.”
Clauser construiu, em 1972, um aparato capaz de polarizar pares de fótons entrelaçados, e conseguiu medir essas polarizações. Os resultados mostraram que Einstein estava curiosamente certo — e errado. Certo em descrever o entrelaçamento e errado ao imaginar que ele era um erro. Embora se tratasse da primeira verificação experimental de um dos temas mais polêmicos da física do século 20, quase ninguém se importou com a descoberta. “Quando foi procurar emprego, Clauser ouviu de outros cientistas que sua pesquisa não era física”, conta Kaiser. Os resultados, no entanto, atraíram a atenção de Elizabeth, que o convidou para ser um dos fundadores do FFG.
Buscar uma teoria que explicasse o sig­ni­­fi­cado do experimento de Clauser levava os jovens físicos do FFG a forçar sua criatividade científica ao máximo. O debate incluía ideias como a possibilidade de comunicação em velocidades maiores que a da luz, a existência de outras dimensões além das quatro que conhecemos e a influência da consciência humana sobre a matéria. Mas havia espaço para outros assuntos também. “Até um especialista em óvnis levamos para par­ticipar de um dos encontros”, conta Elizabeth.
Um ano depois de sua criação, os integrantes do grupo passaram a ser convidados para participar de discussões abertas também no Instituto Esalen, um paraíso turístico cheio de incenso, velas e cursos de meditação em meio a uma paisagem própria para uma viagem de ácido junto à natureza. Os workshops duraram mais de uma década, e atraíram importantes nomes da física convencional, como o prêmio Nobel Richard Feynman. Para manter atualizados os que não podiam viajar até a Califórnia, o grupo começou a publicar um jornalzinho mimeografado com o ambicioso nome de Epistemological Letters (“Cartas epistemológicas”, em tradução livre), que era enviado a alguns dos principais físicos da época.
Aos poucos, os debates criaram um público atento dentro da academia, que incluía gente como o norte-americano John Wheeler, célebre por colaborar com Einstein, criar a expressão “buraco negro” e orientar Richard Feynman, um dos pioneiros da mecânica quântica. “Wheeler tornou-se um grande amigo. Parte do tempo ele se mostrava muito interessado no que discutíamos, depois dizia que éramos malucos”, conta Eliza­beth. A difusão dos debates do FFG gerou resultados. No final dos anos 1970, um físico francês chamado Alain Aspect ouviu falar do trabalho de Clauser. Foi até os Estados Unidos, encontrou-se com ele e se propôs a fazer uma segunda versão dos experimentos, ainda mais sofisticada. Os resultados foram mais uma vez uma goleada a favor da mecânica quântica, e o experimento de Aspect colocou de vez o entrelaçamento quântico no mapa da academia. Aspect e Clauser ganharam em 2010 o prêmio Wolf, considerado uma espécie de prévia do Nobel. “Com certeza, não deve demorar muito para receberem o Nobel”, afirma Kaiser.
 (Foto: rafael quick)
BUDA, SHIVA E TAI CHI CHUAN
Fritjoff Capra também estava perdido na Califórnia em meados dos anos 1970. Austríaco, viveu nos Estados Unidos na década de 1960, onde se empanturrou de rock, drogas e pesquisas com raios cósmicos. Estava em Paris quando explodiu maio de 1968, onda de protestos para pedir a reforma educacional no país. Desempregado, acreditou que poderia ganhar dinheiro rapidamente se escrevesse uma obra sobre física moderna para leigos. Mas achou que seria mais original se acrescentasse a ela outros interesses pessoais, como Buda, Shiva, tai chi chuan, plantas de poder e os paralelos entre tudo isso e as teorias físicas do século 20.
Enquanto escrevia o livro, Capra enviou um capítulo para um físico no Laboratório Lawrence Berkeley pedindo uma opinião. Desinteressado, esse físico repassou o material para Elizabeth.
“Já havia lido obras religiosas orientais, como os vedas e os upanixades. Achei o texto muito interessante e consegui que Capra viesse para nosso laboratório como pesquisador visitante”, conta ela. Capra tornou-se membro fundador do FFG, e o livro, O tao da física, foi publicado no mesmo ano em que o grupo iniciou suas atividades. O austríaco era um ativo participante das reuniões, assim como dos workshops em Esalen. Mas o que lhe valeu o status de membro mais famoso do grupo foi o surpreendente desempenho de seu livro. Em um ano, a tiragem inicial de 20 mil exemplares se esgotou nos Estados Unidos e na Inglaterra. Hoje acumula 43 edições em 23 idiomas.
Um rastro de obras semelhantes veio em seguida, e hoje o chamado “misticismo quântico” é uma indústria que movimenta milhões em vídeos, filmes e workshops. Um dos membros originais do FFG, Fred Alan Wolf, é um dos nomes quentes dessa cena. “Não acho que Capra inventou o misticismo quântico, pois ele não foi o primeiro a propor aqueles paralelos. Mas ele soube adaptá-los à contracultura, e isso fez o livro acontecer”, analisa Kaiser.
HIPPIES FINANCIADOS PELA CIA
Outro grupo de interessados nas ideias do FFG era formado por estudiosos de parapsicologia. No início dos anos 1970, dois físicos, Russell Targ e Hall Puthoff, estudavam indivíduos que afirmavam possuir um dom paranormal conhecido como visão remota, que é a suposta capacidade de enxergar na própria mente cenas e situações distantes. Dentre eles estava o paranormal israelense Uri Geller, conhecido por entortar colheres com a força da mente, que foi submetido a testes em condições controladas. Os resultados foram publicados na revista Nature, mas receberam uma saraivada de críticas. O trabalho de Targ e Puthoff atraiu o interesse de um consórcio de agências de inteligência dos Estados Unidos, entre elas a CIA e o exército. Logo o governo norte-americano estava investindo dezenas de milhões de dólares no estudo da espionagem com visão remota, num programa ultrassecreto que durou uma década.
Antes mesmo que os resultados com Geller fossem publicados, a notícia dos experimentos chegou a Jack Sarfatti, um jovem físico nova-iorquino que havia se mudado para a Califórnia. Ele entrou em contato com Targ e Puthoff e foi convidado a conhecer o laboratório. Lá, recebeu um pedido para ajudar na realização de testes semelhantes na Europa, para onde Geller estava se encaminhando numa viagem de negócios. Sarfatti concordou, e em 1974 entrou num laboratório inglês ao lado do físico mundialmente famoso David Bohm e do escritor de ficção científica Arthur C. Clarke para realizar experimentos de laboratório com Geller.
Elizabeth também foi bater à porta de Puthoff e Targ. Apareceu sem ser convidada, e quase foi posta para fora. Ao final da conversa, começou a explanar suas conjecturas sobre como a física quântica poderia ajudar a explicar a visão remota. Foi o suficiente para que a dupla de físicos mudasse de ideia e a contratasse como consultora, encarregada de tentar explicar conceitualmente os resultados que eles obtinham nos experimentos. No ano seguinte, Elizabeth criava o FFG. “Os testes com Geller também contribuíram para a fundação do grupo”, diz ela. “Tudo aquilo era parte de uma operação de espionagem paranormal custeada pela CIA”, disse Sarfatti a GALILEU. “Isso foi confirmado por um funcionário graduado da agência.”
Durante dois meses em 1975, Sarfatti, Elizabeth e outros membros do grupo dedicaram-se a fazer análises dos experimentos de visão remota. “Analisei estatisticamente 80 experimentos de várias maneiras e encontrei resultados positivos significativos”, diz Elizabeth. Já Sarfatti posteriormente escreveu uma nota dizendo que retirava suas afirmações positivas sobre a suposta paranormalidade de Geller. “Na época, muita gente me pressionou para que fizesse aquilo, mas hoje voltei atrás na retratação”, diz Sarfatti. “A maior parte dos cientistas estabelecidos era hostil ao que fazíamos naquele momento, e muitos ainda são. Se pudessem, me queimariam na fogueira por causa de algumas ideias que propus”, diz.
O FFG durou apenas quatro anos, mas Kaiser enxerga três fatores que o grupo deixou como legado para a comunidade de físicos. O primeiro foi a reabertura para a especulação teórica sobre a mecânica quântica com o máximo de criatividade, algo que havia sido posto de lado após a Segunda Guerra Mundial. O segundo foi a recuperação do interesse pelo tema do entrelaçamento quântico. Por fim, o chamado teorema de não clonagem, que é a base da encriptação quântica. “E fizeram tudo isso procurando manter-se alegres e aproveitando cada minuto do percurso”, diz Kaiser. E, claro, curtindo o barato de um pouco de ácido entre um estudo e outro.