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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Um ‘casamento’ de estrelas destinado a terminar em tragédia




No mundo das artes, estrelas se casam e separam com uma frequência impressionante, mas, apesar dos eventuais dramas, raramente estas uniões acabam em tragédia. No Universo, no entanto, a maior parte dos “casamentos” entre estrelas são indissolúveis, e agora astrônomos, tal qual os infames paparazzi, flagraram um par delas cuja união final está destinada a terminar com a desintegração de ambas em uma enorme explosão de uma supernova.

Liderados por Miguel Santander-García, pesquisador do Observatório Astronômico Nacional de Alcalá de Henares, na Espanha, os astrônomos usaram telescópios do Observatório Europeu do Sul (ESO) no Chile e outros equipamentos do tipo instalados nas Ilhas Canárias para identificar uma dupla de anãs-brancas, pequenos e extremamente densos restos de estrelas como o Sol, em uma dança mortal que terminará com sua fusão daqui a 700 milhões de anos.

E como a massa conjunta do sistema é de cerca de 1,8 vez a do Sol, o objeto resultante desta união ficará com acima do chamado limite de Chandrasekhar, de aproximadamente 1,4 vez a massa de nossa estrela, e o máximo que uma anã-branca pode suportar sem entrar em colapso gravitacional. Além disso, tem início uma reação nuclear em cadeia cujo final é uma explosão de supernova do tipo conhecido como Ia.

A descoberta da dupla destinada à tragédia ao estilo “Romeu e Julieta” aconteceu por acaso. Inicialmente, os astrônomos pretendiam estudar como algumas estrelas produzem nebulosas com formatos estranhos e assimétricos perto do fim de suas vidas. E uma destas chamadas nebulosas planetárias estranhas no céu é um objeto conhecido como Henize 2-428, localizado a pouco menos de 5 mil anos-luz de distância da Terra na direção da constelação de Aquila (Águia).

- Mas quando observamos a estrela central deste objeto com o telescópio VLT do ESO, descobrimos não uma, mas um par de estrelas no coração desta estranha nuvem brilhante – conta Henri Boffin, astrônomo do ESO e coautor de artigo sobre a descoberta, publicado online nesta segunda-feira no site da revista “Nature”.

Segundo os astrônomos, a descoberta de que havia duas estrelas no centro da nebulosa reforçou a teoria de que objetos do tipo com formatos assimétricos são resultado da presença de mais de um astro na sua formação, mas as surpresas não pararam aí. Observações posteriores com telescópios nas Ilhas Canárias permitiram aos astrônomos determinar a órbita descrita pelas duas estrelas e assim deduzir tanto sua massa quanto sua separação.

Os cientistas descobriram então que cada uma das anãs-brancas tem uma massa um pouco menor do que a do Sol, completando uma volta em torno do centro de gravidade comum do sistema binário a cada quatro horas. Com isso, elas estão próximas o bastante para que, de acordo com a Teoria da Relatividade de Einstein, se aproximem cada vez mais, numa espiral alimentada pela emissão de ondas gravitacionais que eventualmente levará a sua fusão dentro dos próximos 700 milhões de anos, deflagrando a supernova.

- Até agora, a formação de supernovas do tipo Ia pela fusão de duas anãs-brancas era algo puramente teórico, mas o par de estrelas na nebulosa Henize 2-428 é a isso tornado em realidade – explica David Jones, também coautor do estudo e astrônomo do ESO na época da descoberta da dupla.

Já o líder da equipe de astrônomos, Santander-García, destaca que isso vai levar a uma revisão dos estudos sobre supernovas do tipo Ia que pode ter profundas influências nas teorias sobre a criação e expansão do Universo:

- É um sistema extremamente enigmático. Ele terá importantes repercussões nos estudos das supernovas Ia, que são amplamente usadas para medir as distâncias astronômicas e foram a chave para a descoberta de que a expansão do Universo está se acelerando devido à ação da energia escura.
O GLOBO