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quinta-feira, 4 de junho de 2015

O Mistério das Máscaras de Chumbo


Na tarde de 20 de agosto de 1966, Jorge da Costa Alves, de 18 anos, subiu o morro do Vintém - RJ, para soltar pipa. Encontrou dois homens mortos e voltou aterrorizado para casa. Em poucos momentos o local ficou repleto de policiais, bombeiros, perícia e imprensa. Os dois corpos estavam próximos um do outro e já cheiravam mal. Vestiam ternos e estavam deitados de costas, ligeiramente encobertos pelo mato. Sobre os ternos, duas capas impermeáveis. Nenhum sinal visível de violência. Nem no local, nem nos corpos. Ao lado, uma garrafa de água mineral vazia e um pacote com duas pequenas toalhas. No rosto dos cadáveres, duas máscaras de chumbo.
A polícia identificou-os pelos documentos encontrados:
Manuel Pereira da Cruz e Miguel José Viana. Ambos, técnicos em Eletrônica, residentes em Campos - RJ. Além das estranhas máscaras de chumbo, ainda foram encontrados indícios que complicaram mais as circunstâncias. Uma agenda, com sinais e números ao estilo de mensagem cifrada. Bilhetes, entre os quais um que dizia: "16,30 estar local determinado. 18,30 ingerir cápsula após efeito proteger metais aguardar sinal máscara".
Eles haviam saído de Campos, no dia 17, dizendo que iriam a São Paulo comprar material de trabalho. Um carro também estava na possibilidade de compra, para o que traziam a importância, na época, de 2 mil e 300 cruzeiros novos. Segundo testemunhas, empacotados num saco plástico, envolto em papel grosso. Esse dinheiro nunca foi encontrado. Todos os seus passos desde que de lá saíram foram rigorosamente levantados pelos detetives cariocas. Tomaram o ônibus às 9 horas da manhã,chegando a Niterói às 14h 30m. Compraram num armarinho as duas capas impermeáveis e num bar a água mineral. Depois seguiram direto para o local onde foram encontrados mortos. Para que e por que, somente eles dois sabiam. Inicialmente, a polícia acreditou que a vinda deles a Niterói se devesse a um encontro com um terceiro personagem. Um dos bilhetes e o desaparecimento do dinheiro reforçavam essa hipótese. No entanto, faltou base nas investigações do delegado Venâncio Bittencourt e os detetives Idovã e Oscar. Um latrocínio explicaria alguns detalhes, mas deixaria muitos outros sem explicação. Duas outras hipóteses foram levantadas, dentro de um quadro de homicídio.


Espionagem ou contrabando. Os dois teriam sido eliminados por elementos de uma ou outra organização. Aquele morro era sabidamente um reduto de contrabandistas, e os dois sempre mostraram interesse em peças estrangeiras. Eram suposições, e daí não passaram.
Quando encontrados, os corpos apresentavam uma coloração rosada. Um bilhete falava em "proteger metais e aguardar sinal máscara". As máscaras estavam lá. Típicas para a proteção
dos olhos contra luz intensa. Talvez calor exagerado ou mesmo radiação. As capas impermeáveis, absolutamente desnecessárias naquele dia. Todos os requisitos para um bom caso policial. Um novelista talvez não pedisse tanto. Isso tudo autoriza a pensar, inclusive, em coisas extraterrenas. E muita gente pensou, provar é que não houve jeito. Estariam os técnicos em Eletrônica tentando comunicação com seres de outros mundos? Seria um contato com habitantes de outros planetas? Que viriam de Discos Voadores ou de outras formas para o encontro? As declarações de Dona Gracinda Barbosa Coutinho de Souza foram importantes neste aspecto. Ela era moradora nas redondezas e o pronunciamento foi feito na ocasião. Afirmou juntamente com os filhos, que viram um Disco Voador sobre o Morro do Vintém.
Um objeto de forma arredondada, cor de laranja, que teria sobrevoado e permanecido ali por alguns minutos. Exatamente no dia e hora da morte dos dois moços. Coincidência,imaginação,
verdade, ficção, nada pode ser desprezado, até que alguma coisa fique confirmada com provas. Que os rapazes eram dados a essas tentativas não há dúvidas. Viviam tentando contato com o outros mundos ou com forças sobrenaturais. Eram dados à práticas místicas. Faziam experiências estranhas, barulhentas e perigosas. Uma foi realizada na praia de Atafona, próxima de Campos.
Ali, os dois falecidos, mais dois companheiros de nomes Élcio Gomes e Valdir, provocaram um fenômeno que resultou numa tremenda explosão. Várias casas da redondeza ficaram ligeiramente danificadas. E durante algum tempo não se falava noutra coisa no lugar. Surgiu até uma versão de que um Disco Voador teria caído na praia. Essas histórias e outras de igual calibre constam de vários depoimentos de pessoas intimamente ligadas aos dois experimentistas. Isso, portanto, está mais do que provado testemunhal e materialmente, porque as sobras dos fenômenos eram eventualmente recolhidas por pessoas e foram confiscadas pela polícia. Pedaços de canos galvanizados,pólvora, espoletas etc. Sim porque, as experiências não passavam, na realidade, de detonação de bombas caseiras. Todas essas passagens constam dos depoimentos tomados em cartório, de: D. Nelly, 32 viúva de Manuel Pereira da Cruz; Sebastião da Cruz, pai de Manuel; Aluísio Batista Azevedo, amigo de ambos, que os levou de Jeep à rodoviária, a fim de pegarem o ônibus; Elza Gomes Viana, viúva de Miguel José Viana; e muitos outros. Eles faziam segredo de tais práticas, e só um grupo reduzido sabia. Um círculo pequeno de amigos. Todos espíritas, que realizavam sessões, reuniões e trabalhos, ora na casa de um, ora na casa de outro. Deles, Miguel, um dos mortos, e Élcio eram os mais ativos e empolgados. Já Manuel vivia "entre a cruz e a cadeirinha"; acreditava desconfiando. Miguel insistia com o companheiro Manuel para convencê-lo. Uma vez convidou-o a assistir a uma "prova" no quintal de sua casa. Fogos correram pelo chão e culminaram num estrondo. Posteriormente o pai de Manuel, que a tudo assistia da janela, recolheu no lugar os restos da "prova". Um pedaço de cano galvanizado e fios, que mostrou ao filho, advertindo-o de que estava sendo estupidamente enganado. Mas a dúvida permaneceu, tanto que num dos depoimentos havia uma referência a que Manuel, em dia próximo ao de sua morte, teria dito: "Vou assistir a uma experiência definitiva. Depois dela, eu digo se acredito ou não".
Essas versões extraterrenas e sobrenaturais são sempre a tônica de casos de difícil solução. Geralmente tratam de fatos apoiados em depoimentos, nunca em provas reais. É uma faixa
de perigoso trato, onde qualquer resvalo pode conduzir ao ridículo. Entretanto, nunca podem ser desprezadas, pois constituem invariavelmente uma possibilidade viável. Neste já famoso caso das máscaras de chumbo, essas hipóteses vingaram na não determinação da "causa mortis". E o problema tomou dimensões que ultrapassaram os limites do Estado do Rio de Janeiro. Trata-se de um enigma que desafiou a técnica policial brasileira. Se foi crime, teria de haver um terceiro personagem na história. Inicialmente todas as suspeitas recaíam sobre Élcio Gomes, porém nada ficou que pudesse lançar-lhe a mais leve culpa. Nem mesmo a possibilidade de latrocínio, na qual o terceiro homem poderia ser alguém absolutamente desconhecido. Suicídio, nem se pode cogitar, por falta total de base. Sobrou ainda a versão de acidente. Um bilhete falava em "ingerir cápsulas". Eles teriam tomado alguma droga letal com a finalidade de buscar a "transcendência". Mas o diabo é que isso não apareceu nos exames toxicológicos. O que eram as tais cápsulas? Quem as forneceu? Quem as manipulou? Perguntas que, se respondidas, poderiam trazer muita luz ao caso. Acontece que tanto o delegado Venâncio como o delegado Sérgio Rodrigues e seus comandados esgotaram os meios, sem nada conseguir. A conclusão a que todos chegaram foi que somente a determinação da "causa mortis" poderia trazer a solução definitiva.

O Secretário da Segurança Dr. Homero Homem, o Comissário Luizinho, Oficial de Gabinete, o delegado Sérgio Rodrigues e o delegado Idovã, formaram uma linha de ataque ao problema. Novas diligências foram feitas na cidade de Campos e Macaé. Outro levantamento de local, mais minucioso e cuidadoso. Reinquirição de todas as testemunhas já ouvidas. Depoimentos de novas testemunhas. Enfim, uma arrancada para a elucidação total e satisfação da sociedade. Prova alguma, porém, surgiu
que pudesse atribuir a responsabilidade a alguém pelas mortes de Manuel Pereira da Cruz e Miguel José Viana. Cada vez mais se concretizava a idéia de que a chave do mistério residia na identificação da "causa mortis". Convictas disso, as autoridades, em agosto de 1967, exumaram os dois corpos. Os Drs. Sebastião Faillace e Adalberto Otto colheram mais material para exame.
Com a colaboração de mais dois médicos legistas do então Estado da Guanabara, fizeram um belíssimo trabalho de Medicina Legal. Infelizmente, a presença de formol nos corpos exumados prejudicou sensivelmente o trabalho dos legistas. O embalsamamento pôs por terra grande parte da chance, porque certas substâncias tóxicas não puderam ser testadas.
Num balanço das medidas até então tomadas, tínhamos os seguintes resultados: exames de local, da época (1967), e atual (1968): nada que determinasse morte violenta ou não. Laudo da necrópsia da época: nada que pudesse determinar a morte.
Exame toxicológico do local: nada que pudesse causar a morte.
Exame toxicológico na época e na exumação: nada responsável pela morte. Exame grafotécnico: os bilhetes foram escritos por Miguel.
Uma pergunta sem resposta. Que tipo de morte esteve no morro do Vintém, na noitinha de 20 de agosto de 1966? Deste planeta; de outros espaços; de outra dimensão? Que morte que levou duas almas, sem justificar? Que não deixou nada que a identificasse, porque veio mascarada? Com duas máscaras de chumbo.



(Revista "O CRUZEIRO" - 1968 - Do texto de Jorge Audi)