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segunda-feira, 13 de julho de 2015

ÍSIS, A VIRGEM MÃE DO MENINO-DEUS HÓRUS


Ísis, a mãe do menino-deus Hórus, era a deusa mais importante do panteão egípcio. Seu culto, na forma em que era praticado já em sua fase recente, cerca de dois mil anos atrás, serviu de matéria-prima para a construção do cristianismo. Um de seus nomes alternativos era Meri. Dentre seus títulos, constavam os de Rainha do Céu, Estrela da Manhã, Estrela do Mar, Virgem Mãe de Deus. Era a mediadora entre o céu e a terra, e representada pisando a lua crescente, com seu filho ao colo, às vezes como uma pomba, ou com estrelas nos cabelos ou ao redor da cabeça. Essa pomba surgia no episódio em que seu filho Hórus é batizado por Anup ou Anúbis no rio Nilo. Horus foi o Deus solar e o redentor do egípcios: era chamado “O caminho, a verdade, a luz”, “o filho ungido de Deus”, “o Bom Pastor”, o “Salvador” , “Cordeiro de Deus”, “Pão da Vida”.
As imagens de Ísis como uma virgem negra segurando seu filho ao colo inspiraria todas as madonas negras do paganismo e da cristandade. Uma gravura em arte alexandrina de Ísis exibe a legenda: “Imaculada é Nossa Senhora Ísis”, e uma de suas representações mais comoventes mostrava Ísis pranteando a morte de Osíris, o deus ressuscitado dos egípcios.
Nas procissões em sua homenagem, um homem velho à sua frente conduzia um asno, símbolo da fecundidade, imagem que inspiraria a cena tradicional em que José conduz Maria grávida montada em um burrico. Lucius Apuleius se dirige a ela nestes termos: "Ó Santa e eterna Salvadora da raça humana... tu dás luz ao Sol. Tu esmagas a morte sob teus pés", pois a crença nessa deusa levava à vida eterna. Uma das frases mais conhecidas da deusa-mãe era "Vinde a mim os que sofrem, que eu os consolarei”, lida na inscrição de seu templo em Dendera (cerca de 1500 AC).
O culto tardio a Ísis prometia a salvação individual, que dependia do arrependimento, e as faltas de seus seguidores eram confessadas e perdoadas pela imersão na água. Na religião egípcia, a maior celebração de Ísis acontecia em 25 de dezembro, quando se comemorava o nascimento de seu filho Hórus e então, doze dias depois, em 6 de janeiro, o de seu outro filho, Aion. A primeira data foi incorporada pela Igreja Romana, e a segunda pela Igreja Ortodoxa para a celebração do nascimento de Jesus. Em março era comemorada a Anunciação do nascimento de Hórus.
Seu templo em Saís, uma antiga capital do Egito,exibia a seguinte inscrição "Eu sou tudo o que era, o que é, e o que há de vir" - palavras muito mais tarde atribuídas ao deus cristão no livro do Apocalipse (1:8). Seu filho Hórus, por sua vez, declarara “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” cerca de 3000 anos antes de nossa era.
Com o advento da cristandade, muitos de seus templos foram transformados em igrejas dedicadas à Virgem Maria. Devemos a Cirilo, bispo de Alexandria (c.378-444), a substituição de Ísis por Maria, a mãe de Jesus, como objeto de adoração. Dessa deusa, Maria haveria de tomar emprestados suas imagens, títulos, símbolos, ritos e cerimônias, assim como a sua mística condição de Virgem Mãe de Deus.
Texto de Antônio Farjani - Psicanalista e Escritor.