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quarta-feira, 10 de junho de 2015

Como Jurassic Park e a ficção científica impulsionaram pesquisas

Oparque está quase aberto. Duas décadades depois e Jurassic Park virou o Jurassic World, o primeiro e único parque temático de dinossauros. A ciência, aparentemente, também evoluiu: os dinossauros modificados geneticamente ganham um papel secundário diante a nova estrela do show, um híbrido geneticamente modificado que, de forma preocupante, foi batizado de Indominus Rex. Claro, vai rolar confusão.
Em 1993, quando o primeiro filme de Jurassic Park foi lançado, cientistas que tinham alguma interesse - ou nenhum - em paleontologia ou biologia molecular se perguntaram a mesma coisa: "Podemos ressuscitar um dinossauro?" A resposta sempre foi um 'não' enfático.
Mas, de certa forma, Jurassic Park ajudou a desenvolver a ciência e a tecnologia por trás da pesquisa de DNA antigo. Passei o último ano entrevistando cientistas sobre a história dos estudos desse tipo de DNA e os efeitos causados pelo filme em seus trabalhos como parte da minha pesquisa para doutorado.
  (Foto: reprodução)
Esperança e Hype A pesquisa de DNA antigo fica em cima do muro entre ciência e ficção científica, algo ressaltado por sua história curta e sensacional. Michael Crichton, autor do livro 'Jurassic Park, que inspirou o filme, sacou isso bem rápido. Dinossauros sempre foram frequentes em museus, mas abrir ossos perfeitamente preservados para descobrir o que havia dentro deles era novidade.
Nos anos 1980, ideias inovadoras por trás da busca por DNA dentro de insetos preservados em âmbar foram as inspiradoras de Jurassic Park, e as catastróficas consequências de trazer dinossauros de volta à vida. O que não era previsível foi o impacto que o filme teve e continua tendo na pesquisa.
Foi nos anos 1990 que a busca por DNA dos mais antigos fósseis começou. Cientistas chamam essa fase de "Velho Oeste" e até de "A fase Jurassic Park". Foi durante essa época que a influência da história ficou mais evidente. 
Em 1993, o ano em que o filme foi lançado, temos um ponto importante na história da pesquisa do DNA: uma equipe de cientistas extraiu e e sequenciou o DNA contido em um mosquito preservado por âmbar, de 125 a 130 milhões de anos de idade. Os resultadosforam divulgados na revista Nature no dia 10 de junho - um dia depois da estreia de Jurassic Park nos cinemas.
Isso não foi uma coincidência. Um dos cientistas com os quais conversei dsise que era 'extraordinário que uma publicação científica como a Nature segurasse um artigo para esperar o dia da estreia de um filme'. O fato causou um grande furor na mídia.
Ressureição de dinossauros No mesmo ano, Jack Horner - o paleontólogo e consultor científico de Jurassic Park - propôs um projeto para investigar o DNA de dinossauros para a National Science Foundation. Ele recebeu uma bolsa no mesmo ano e isso também não foi coincidência. Um dos cientistas que entrevistei achava que a NSF ofereceu os fundos de pesquisa apenas pelo filme: "era o timing perfeito". (essa e tentativas subsequentes de obter DNA de dinossauros falharam).
Além de conseguir alterar o timing de publicações e obter dinheiro para pesquisas, o Jurassic Park criou uma nova geração de cientistas "nerds mais glamourosos". Um dos pesquisadores que entrevistei declarou que 'DNA antigo soa bacana' porque está no domínio popular.
  (Foto: reprodução - universal)
Mas a influência de Hollywood nem sempre foi positiva. Outro cientista afirmou que o filme "causou expectativas sobre o que o DNA poderia fazer. Infelizmente, por que foi feito por um grande diretor - Steven Spielberg - é um filme que ficou na mente das pessoas".
Para esse cientista, o filme e a mídia ao redor dele enganou o público sobre o que é a pesquisa sobre DNA antigo. 
"Quando eu dou uma palestra sobre DNA antigo, é colocado um pôster com um dinossauro nele. Já me opus a isso. Já disse que não temos DNA de dinossauros, então não deveríamos mostrar dinossauros. É uma influência ruim".
Mas, para o bem ou para o mal, o legado de Jurassic Park ainda existe. A retórica da ressurreição certamente tornou mais finos os limites entre fantasia e realidade, especialmente na mídia. 
Trazendo mamutes de volta Com o passar dos anos, o foco desse interesse, de alguma forma, mudou. Atualmente as questões não são sobre a ressurreição de dinossauros, mas sobre trazer mamutes de volta - principalmente após a descoberta do DNA de mamutes em 2013.
Quando perguntei a pesquisadores que trabalham com DNA sobre isso a grande maioria dos cientistas me respondeu "Por que iríamos querer trazer um mamute de volta?". Isso requer melhorias tecnológicas e biológicas significantes, além de considerações éticas, políticas e filosóficas.
A ética de trazer um mamute de volta anda em mão-dupla. O paleontólogo Michael Archer afirma que temos a obrigação moral de recuperar espécies como o tigre da Tasmânia porque nós - por aumento da população e da caça - fomos os causadores de sua extinção.  Mas a maioria dos cientistas argumenta que nosso tempo e recurso deveria ser gasto conservando o meio ambiente que temos hoje. Um dos -pesquisadores disse que "se aliens pousassem aqui e olhassem para a nossa sociedade, eles ficariam bem surpresos ao ver que decidimos gastar recursos tentando trazer um mamute de volta". 
Jurassic Park certamente deixou um grande e importante legado. É um legado que faz com que questionemos a nossa motivação para trazer animais extintos de volta. E, com a estreia de Jurassic World, esse debate sobre ciência ou moda estará no palco novamente.
*Elizabeth Jones é candidata a PhD Candidate em Science and Technology Studies na UCL