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terça-feira, 21 de julho de 2015

Transgênicos serão a salvação da humanidade ou causarão danos irreversíveis?

Um triângulo amarelo com um T em negrito tornou-se a polêmica da vez no Brasil. Por 320 votos a 135, a Câmara dos Deputados aprovou no final de abril um projeto de lei que permite a retirada da informação visual capaz de identificar a presença de alimentos geneticamente modificados nos rótulos de produtos como óleo de soja, fubá, maisena, salgadinhos e outros artigos encontrados na mesa do brasileiro.
Esse novo round que divide políticos, cientistas, ambientalistas e empresas faz parte de uma queda de braço que começou em 1998, quando a soja Roundup Ready, modificada pela gigante da biotecnologia norte-americana Monsanto, foi aprovada para comercialização e plantio em território nacional. Uma ação judicial, no entanto, bloqueou o uso do grão, e só em 2003, por meio de medida provisória assinada pelo governo federal, a liberação dessa e de outras culturas foi finalmente aprovada. Afinal, por que os alimentos transgênicos despertam tanta polêmica?
Juliano Bicas, professor da faculdade de engenharia de alimentos da Unicamp, dá tons literários para explicar o tema. “O gene de um alimento carrega uma informação, como se fosse uma frase de um livro, escrita em linguagem universal entre os organismos vivos”, diz. “Dessa forma, é possível que se transfira uma frase de um livro de Machado de Assis para um livro de Manuel Bandeira. As pessoas podem até perceber que o novo trecho não é original daquele livro, mas nada impede que o texto seja lido com sentido.” Alguns pesquisadores poderiam dizer que a mistura das boas qualidades literárias de Manuel Bandeira e de Machado de Assis produziria um romance absolutamente impecável. Os críticos, por outro lado, considerariam que a manipulação artificial teria consequências indefinidas. Mas, ao contrário de um livro extremamente ruim, o receio em relação à produção em escala cada vez maior de alimentos transgênicos tem a ver com potenciais ameaças à saúde, com o desenvolvimento de doenças como o câncer, ou com a ameaça à biodiversidade por conta da evolução de superpragas capazes de destruir plantas geneticamente modificadas e todas as suas companheiras “normais”.
Até o biólogo evolucionista britânico Richard Dawkins se posicionou sobre os X-Men da agricultura, que prometem produtividade de alimentos para uma população que não para de crescer. “Os humanos fazem engenharia genética há centenas de anos. Temos plantas e animais que são muito diferentes de seus antecessores, e fazemos isso com seleção artificial”, disse Dawkins durante palestra realizada no Brasil para o Fronteiras do Pensamento. “Mas você não faz coisas que podem causar desastres, essa é uma questão ética importante.” Resta saber se essa ética científica capaz de impedir a seleção artificial de genes humanos com superqualidades também se refletirá no cuidado com os alimentos que garantem nossa sobrevivência.
 (Foto: Rodrigo Damati)
SELO DA DISCÓRDIA
Retirada de símbolo foi criticada por entidades de defesa do consumidor
De autoria do deputado federal Luis Carlos Heinze (PP-RS), o Projeto de Lei 4148 estava em tramitação na Câmara dos Deputados desde 2008 e foi resgatado este ano durante o mandato de Eduardo Cunha (PMDB-RJ), novo presidente da casa. Aprovada por 320 votos a 135, a lei prevê a retirada da identificação visual dos produtos que contêm alimentos transgênicos e também suspende a necessidade da informação no rótulo da espécie doadora do gene que modificou o alimento original. Se detectado em análise laboratorial, produtos com índice de transgenia superior a 1% deverão exibir um texto informativo em letras com tamanho mínimo de um milímetro. Para o Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), a lei viola o direito de exercer a livre escolha de compra. “O símbolo tem um poder de mensagem muito mais forte que uma expressão escrita, e a sua retirada limita o entendimento do consumidor”, afirma Renata Amaral, pesquisadora do Idec. “Caso a lei seja aprovada, o consumidor ficará completamente suscetível às informações que a indústria de alimentos quiser passar.”
Em defesa do projeto, que seguirá para votação no Senado, Heinze argumentou que não há determinação específica de informação nas regras de rotulagem estabelecidas por organismos como o Mercosul ou a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). Seu ponto de vista, no entanto, não é unânime entre os deputados federais. “Foram justamente os que dizem que transgênicos não oferecem risco algum para a saúde que trabalharam para retirar dos rótulos a informação. Não é contraditório?”, diz o deputado federal Alessandro Molon (PT-RJ), contrário ao projeto de lei. Procurado pela reportagem, Heinze não se pronunciou até o fechamento desta edição.
PODE E NÃO PODE
Conheça os países com as maiores lavouras de transgênicos (tamanho calculado em hectares) e os lugares onde elas são proibidas

 
Fonte: International Service for the Acquisition of Agri-Biotech Applications (Isaaa) (Foto: Rodrigo Damati)
DIVIDIR O PÃO EM 9 BILHÕES
A produção de alimentos acompanhará o crescimento da humanidade?
A matemática é simples: de acordo com dados divulgados pela FAO, nosso planeta deverá abrigar 9,6 bilhões de pessoas até 2050. Será necessário um crescimento de 70% do total de terra cultivável para produzir alimentos em quantidade suficiente para todos, com investimentos estimados em US$83 bilhões anuais. Para superar esse gargalo, o desenvolvimento de transgênicos em larga escala é defendido pelas empresas de biotecnologia, mas não é uma unanimidade entre especialistas. “É necessário fazer um balanço da agricultura moderna porque as monoculturas são insustentáveis do ponto de vista ecológico e se contrapõem a um dos princípios básicos da natureza: a diversidade”, afirma Paulo Brack, professor do departamento de botânica da UFRGS.
A agricultura orgânica, que não utiliza agrotóxicos nem sementes geneticamente modificadas em sua produção, é um contraponto a esse modelo, mas ainda não consegue competir com as grandes plantações. “O alimento orgânico é um segmento de mercado, você não consegue uma produtividade elevada, e o preço é alto”, diz Mateus Mondin, professor do departamento de genética da Esalq. “Minha preocupação é com a fome no mundo, e esse problema não se resolve com um segmento de mercado.” Para o pesquisador, no entanto, a aplicação de algumas técnicas orgânicas ajudaria a agricultura tradicional até que a ciência consiga equilibrar a relação entre sustentabilidade e produção. “Não acredito que o transgênico seja definitivo, aparecerão alternativas dentro de dez ou 20 anos, porque essa é uma tecnologia cara e frágil.”
A EVOLUÇÃO DO TRANSGÊNICO
Desde que estudantes da Universidade Stanford tiveram a ideia de criar um DNA feito pelo homem, muita coisa mudou nos produtos geneticamente modificados
1935 > O cientista russo Andrei Nikolaevich Belozersky isola o DNA pela primeira vez
1973 > Estudantes de medicina da Universidade Stanford têm a ideia de criar um DNA feito pelo homem
1980 > É emitida a primeira patente para um ser transgênico. Trata-se de uma bactéria que se alimenta de petróleo
1994 > O primeiro alimento transgênico, o molho de tomate Flavr Savr, chega aos supermercados
1996 > Na Austrália, uma espécie de erva daninha fica até 11 vezes mais resistente ao herbicida glifosato
1997 > A União Europeia exige que os alimentos transgênicos sejam identificados no rótulo
1998 > Justiça brasileira impede o plantio de sementes geneticamente modificadas
2003 > Encontrado nos EUA o primeiro inseto resistente às plantas transgênicas, a Helicoverpa zea. Governo brasileiro autoriza o plantio de soja geneticamente modificada
2004 > No Brasil, todos os produtos que contêm transgênicos devem ser identificados com um símbolo na embalagem
2005 > Algodão da Monsanto é liberado para plantio no Brasil. Dois anos depois, três tipos de milho também seriam aprovados
2014 > Expira a patente para a linha de sementes geneticamente modificadas Roundup Ready, da Monsanto
SELEÇÃO NATURAL?
Desde a década de 1990, cientistas alertavam que os insetos poderiam ficar resistentes aos transgênicos. Eles estavam certos
Quando foi introduzido, em 2003, o chamado milho BT parecia ser a resposta para todos os desejos dos fazendeiros. Isso porque, uma vez plantado, ele exigia bem menos agrotóxicos porque produzia uma toxina que acabava com as pragas e apresentava uma produtividade bastante boa. O sucesso foi tão grande que, em pouco tempo, as sementes transgênicas da Monsanto já estavam presentes em 65% das plantações de milho nos Estados Unidos e eram usadas para produzir cereal, adoçante e óleo de cozinha. Anos depois, no entanto, alguma coisa passou a dar errado. Em certos estados norte-americanos onde havia cultivo de milho transgênico, as pragas voltaram a atacar as plantações. A explicação? Algo que os cientistas já tinham previsto anos antes: insetos tinham ficado resistentes ao milho geneticamente modificado.
O besouro foi um dos primeiros insetos que passaram por um processo de seleção natural, tornando-se resistentes a plantas transgênicas. Mas não é o único. Estudo publicado em 2013 na revista científica norte-americana Nature Biotechnology mostra que já existem pelo menos cinco tipos de insetos que conseguem sobreviver às toxinas produzidas pelas plantas geneticamente modificadas e que atacam plantações de algodão e de milho. Pode parecer pouco, mas em 2005 havia apenas um inseto mutante.
A notícia ganhou manchetes em jornais do mundo todo e fabricantes de sementes transgênicas dividiram a culpa com os agricultores. Segundo elas, o problema teria sido causado pelos fazendeiros, que não seguiram a recomendação de adotar boas práticas agrícolas, como fazer rotação de cultura e de plantar o que se chama de refúgio – técnica que usa um determinado número de plantas convencionais no meio da lavoura, o que reduz as chances de dois insetos resistentes copularem e passarem o duplo gene recessivo para seus descendentes. “Essa tecnologia trouxe uma eficácia de controle de pragas que o agricultor não via com o inseticida”, diz Geraldo Berger, diretor da Monsanto no Brasil. “Ele pensou: vou plantar 100% da área com a semente transgênica e ficar tranquilo.” Como mostrou o processo de seleção natural acelerado pelas plantas transgênicas, não é tão simples assim.
CRIADORES E CRIATURAS
As empresas que dominam as plantações de transgênicos no país e o número de variedades de sementes cultivadas
Apenas duas empresas nacionais concorrem pelo plantio dos transgênicos: a Embrapa, que produz feijão e soja (esta em parceria com a alemã Basf), e a FuturaGene, da Suzano Papel e Celulose, responsável por desenvolver eucalipto geneticamente modificado, cujo cultivo foi liberado este ano. Acima do nível de produção das duas estão as norte-americanas Monsanto, Dow e DuPont, a suíça Syngenta e a alemã Bayer, que, como as brasileiras, produzem sementes resistentes a insetos e/ou tolerantes a herbicidas.
 (Foto: Rodrigo Damati)
CIÊNCIA EM DEBATE
Convidados por GALILEU, especialistas com opiniões distintas argumentam sobre a utilização de transgênicos
A FAVOR
“Várias associações ao redor do mundo já atestaram a segurança dos alimentos”
Todos os alimentos que cultivamos hoje foram espécies que precisaram ser adaptadas ao longo de muitos anos,  logo é estranho dizer que sementes feitas a partir de um novo método sejam transgênicas e ignorar milhares de outras variedades feitas com outro método. Uma pesquisa do Pew Research Center, de 2015, mostrou que 89% dos membros da Associação Norte-Americana para o Avanço da Ciência (Aaas) acreditam que os alimentos transgênicos são seguros. Apesar dos mais de 1.700 estudos que comprovam isso, as poucas pesquisas antitransgênicos confundem os consumidores. Assim, surgem pessoas procurando por fatos que se ajustem a suas crenças, em vez de examinar a questão objetivamente. Quando sento para comer com minha família, não penso se a comida é transgênica ou não, mas sim se ela foi preparada de acordo com as normas sanitárias e de manuseio.
> Bruce M. Chassy,  professor da Universidade de Illinois, nos Estados Unidos
CONTRA
“A indústria dos transgênicos planeja substituir a natureza para obter lucro”
Qualquer cientista que afirme não existir diferença em um organismo geneticamente modificado é mal informado. Este ano, um estudo da Agência Internacional de Pesquisa do Câncer, ligada à OMS, afirmou que o glifosato, presente em 80% das colheitas transgênicas, pode ter substâncias cancerígenas. A natureza irreversível desses organismos torna-os perigosos. Não afeta só quem come, mas todos os seres vivos e as futuras gerações. Isso é preocupante, já que a indústria dos transgênicos planeja modificar geneticamente todas as sementes comerciais, além de árvores, peixes, bactérias etc. Essencialmente, planeja substituir a natureza para obter lucro. Cientistas independentes que descobrem problemas são atacados por advogados defensores dos transgênicos, e alguns pesquisadores se recusam a seguir pesquisando nessa área porque não querem comprometer a carreira.
> Jeffrey  M. Smith,  diretor executivo do Instituto para Responsabilidade Tecnológica, nos Estados Unidos
Revista Galileu