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sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Construção de megatelescópio em montanha sagrada gera polêmica no Havaí


A astronomia faz parte do DNA do povo havaiano. Sem o domínio de conhecimentos astronômicos, os navegadores polinésios que povoaram as ilhas há mais de um milênio não teriam conseguido levar a cabo sua ousada expedição pelo oceano Pacífico. Por volta do ano 400, esses habilidosos marinheiros partiram com suas canoas da atual Polinésia Francesa e cruzaram cerca de 4 mil quilômetros de mar até desembarcarem no que hoje chamamos de Havaí. Foram as estrelas que mostraram o caminho.
Ali, naquele arquipélago isolado e paradisíaco, eles puderam desenvolver ao longo dos séculos uma cultura rica. Entre os muitos mitos que criaram, um deles concebe um enorme vulcão extinto como a morada celestial dos deuses. Chamada de Mauna Kea, a montanha tem 4,2 mil metros de altura e é uma espécie de Olimpo havaiano. Para os nativos, o cume é um dos locais mais simbólicos de todo o Havaí, e foi por isso que eles se revoltaram com um projeto que visa a construir um megatelescópio justamente lá. A iniciativa foi uma espécie de gota d’água, depois de 13 observatórios terem se instalado ali desde os anos 1960, em terra arrendada pela Universidade do Havaí.
"No cronograma da construção, o atraso é pequeno, e o tempo tem sido bem gasto para um melhor entendimento das preocupações relativas ao projeto"
Michael Bolte, membro do conselho do TMT
A expectativa da comunidade astronômica é que o Thirty Meter Telescope (TMT) fique pronto dentro de uma década. Só que os planos já começaram mal: as obras deveriam ter sido iniciadas em abril, mas estão paradas até agora justamente devido aos conflitos com a comunidade. Os protestos começaram em outubro do ano passado e ficaram mais intensos a partir de abril. Manifestantes continuam acampados no topo da montanha para impedir o acesso de caminhões e operários. “No cronograma da construção, o atraso é pequeno, e o tempo tem sido bem gasto para um melhor entendimento das preocupações relativas ao projeto”, afirmou a GALILEU o astrônomo Michael Bolte, professor da Universidade da Califórnia e membro do conselho do observatório.
Para garantir que o TMT saia do papel, os próprios cientistas estão tendo de apresentar contrapartidas à sociedade. Um exemplo é a própria arquitetura do edifício que abrigará o instrumento — o projeto, totalmente sustentável, prevê até uma camuflagem para não ficar tão visível. Apenas 14% da ilha conseguirá enxergá-lo. Também serão injetados anualmente US$ 3 milhões na economia local por meio de programas de incentivo à inovação, sem contar a criação de 300 empregos diretos durante a construção e de outros 140 depois que o telescópio estiver pronto. A ideia da organização é criar um círculo virtuoso que crie oportunidades locais e evite que os jovens tenham de deixar a ilha para perseguir seus sonhos em outros lugares. 
AO INFINITO E ALÉM As proporções do TMT são impressionantes. O espelho principal do telescópio gigante terá um diâmetro de 30 metros e conseguirá espiar as galáxias mais distantes do universo observável. Quanto mais longe uma estrutura está de nós, mais antiga ela é — os astrônomos vão poder enxergar em detalhes objetos formados pouco tempo depois do Big Bang.